contador mensal
Visit http://www.ipligence.com
Sábado, 03 de Dezembro de 2011

O sol baila nas folhas das árvores acompanhado da luminosa aragem. Junto ao Forte de S. Clemente, cinco bancos de jardim, apresentando o cinzento do verniz lascado, contemplam o celestial azul puro e diáfano. Apesar da aragem fresca, o sol queima-me a pele com os seus braços ardentes como ferros em brasa. A folhagem verde-escura que veste as árvores, começa a tingir-se de amarelo. Algumas caem chocando violentamente contra a minha figura debruçada sobre um “livro de bolso” que tento ler desde há uns dias para cá, sem grande sucesso. Como é a biografia de uma simpática personalidade da História recente, do século passado, faço um esforço. O cinzento forte adormecido eleva-se à minha frente e esfrega os olhos despertando dos seus longos sonos seculares. Olha-me intrigado. Talvez até aborrecido. Não sei. A minha presença constante parece perturbá-lo profundamente. Os seus olhos faíscam de curiosidade e alguma desconfiança. Talvez até alguma vaidade. Nunca tivera espectadora tão fiel e interessada. A sua curiosidade incomodava-o. Queria regressar à privacidade do seu sono, mas sabia que era difícil! Que se passava consigo?

Tento regressar à leitura. Mas tudo parece conspirar para me distrair. São os turistas que passam de máquina fotográfica espreitando a paisagem sobre o rio no final da tarde. São os habitantes com os quais cruzo meia dúzia de palavras simpáticas. São as crianças correndo livremente à frente dos pais que seguem os seus divertidos e entusiásticos passos. São as conversas em alta voz ao telemóvel…

Subitamente, uma peluda massa negra encaracolada entra no recinto da praça a uma velocidade estonteante. Parece um fugitivo em busca de asilo. Passa pelo banco onde estou sentada e trava bruscamente mais à frente. Dá meia volta e regressa aos meus pés. Olha para mim com uns avaliadores olhos meigos. Salta para o banco e senta-se a meu lado, virando-me as costas. Parece querer encontrar no ar fino um buraco para se esconder. Volta-se resolutamente para mim. Encara-me, por momentos, e olha na direcção do inacessível nobre forte. Estendo o braço e acaricio a sua cabeça molhada atrás das orelhas. Fica quieto apreciando o carinhoso e simpático gesto. Volta o focinho escuro para mim com ar reconhecido. Noto os vestígios de areia no seu focinho. Minúsculas partículas de areia que incendeiam o seu focinho ao ar luminoso. Noto a coleira colorida e percebo que tem dono e que este deve andar à sua procura. Não me enganei! Passados alguns momentos, ouve-se um fino silvo humano. O cão ergueu as orelhas. Reconheceu o som. Procura refúgio no espaço entre o banco e as minhas costas. Demasiado estreito! Parece transtornado. Procura avidamente um local para se esconder numa tentativa desesperada de não ser encontrado. Um vulto desenha-se no ar, fora do recinto da praceta. Chama-o. O cão foge para o banco frente ao meu, procurando refúgio nas pernas de um senhor deformado pelo excesso de peso. Regressa a mim, sem saber o que fazer. O dono aproxima-se e chama-o. Parece convencido a segui-lo. À saída da praceta, numa inesperada decisão, regressa a mim. Não me quer deixar. Quer protecção! Leio na sua atitude o receio. O dono voltou, novamente, para trás.

- Anda! Anda lá, que já não vais mais ao banho! – promete o dono falando, divertido, com ele. O cão não se decide.

- Tu queres, é colo! – observa o dono de brinco na orelha aproximando-se perigosamente de mim e envolvendo o pequeno animal com o braço.

E o pobre lá vai, contrafeito, embalado pelo passo resoluto do homem e olhando desesperadamente para trás como um fugitivo que acaba de ser apanhado! E logo quando está prestes a conseguir atingir o amado exílio que o põe a salvo das mãos torturadoras!

E a tarde cai sobre o recinto exterior à fortaleza. E com ela o sol que fatigado, se prepara para mergulhar no merecido descanso.

Olho em redor. Nada me prende mais àquele espaço. Levanto-me e vou até ao muro de onde se avista a comunhão de rio e mar, numa calma que se espelha nas brasas sulcadas na superfície aquática. Olho a maré que vazou deixando a descoberto o areal ainda molhado. Caminho até à passadeira de madeira gasta, no fim da qual um barco parece estar em apuros mecânicos. Duas mulheres entendidas debruçam-se sobre ele, buscando a causa da insuficiência motora. Depressa chegam a uma conclusão. Sabem como devem proceder. O alívio nota-se-lhes na voz. Subo as escadas do caminho de regresso. A área está limpa. Não se vê ninguém. Viro à esquerda. O sol espera-me para mais uma despedida. Percorro a marginal até ao farol prestes a acordar para mais uma noite de vigília costeira, atirando a sua luz pelo ar escuro da noite até se perder na ignota distância, alheio ao brutal e intermitente esforço produzido. Adormecerá quando o sol se erguer, de novo, pronto para a sua amada tarefa rotineira.

 

Fátima Nascimento



publicado por fatimanascimento às 09:03
Sábado, 19 de Novembro de 2011

A angústia empurrou-me para a praia. A solidão forçada de umas paredes exíguas, encavalitadas em cima de um anexo térreo, aponta-me o caminho do mar.

As lágrimas teimam em saltar, protegidas pelos óculos escuros. A alma chora. Os pés, deixando para trás a hesitação, avançam determinados. O areal cortado, ao fundo, pelo penetrante azul calmo do oceano, já se desenha. Os meus olhos descansam na paisagem familiar. O corpo avança atraído pela paz solta nas asas abertas de uma gaivota.

Sento-me na toalha estendida virada para o marítimo azul forte. Mais uma borrasca lacrimal. Mas, de repente, a minha alma abre-se numa comunhão profunda com a natureza envolvente. Serenou. Levanto-me e dirijo-me à beira mar. Uma onda minúscula enrola-se junto ao areal como uma cobra que foge ao longo da orla marítima, apagando, atrás de si, o seu rasto. A água acaricia-me os pés. O sol desenha, no areal coberto pela água transparente, os contornos da epiderme aquática, em finas linhas de fogo.

O areal está semeado de corpos e chapéus-de-sol coloridos. Não são muitos. São sobretudo idosos que aproveitam o bom tempo para o lazer. Os mais novos aproveitam as folgas. São poucos. Pego nos poucos pertences e dirijo-me ao resistente farol adormecido. Vou despedir-me do sol!, penso. Percorro, sem dificuldade, os metros que me separam da falésia. Um branco muro baixo enfeita a orgulhosa fronte como um diadema. O sol aproxima-se perigosamente do horizonte azul. Parece apressado!

E o sol mergulhou. Cansado, desanimado. Não sabe se voltará, amanhã. Recusa-se a espelhar a sua luz na calma epiderme aquática, salpicada de escuros sinais rochosos. A mancha arrendada, esculpida pelas ávidas e ásperas línguas salgadas, nas rochas esventradas, equilibra cuidadosamente a água, ali aninhada, que se estende por uma área considerável. Nem mesmo ela é presenteada por um raio luminoso! A sua brilhante e alaranjada bola arrefecida, afunda-se vagarosa mas decididamente. Está profundamente magoado! Quer esquecer estes dias que, somados a tantos outros, o cansaram profundamente! Tanta esperança gorada! Não podia mais! Os seus lacrimosos olhos flamejantes perderam o brilho habitual. A larga laranja de fogo já não é mais do que um risco brilhante semelhante a um pequeno charuto luminoso. Agora, nem mesmo isso! A larga extensão de água engoliu completamente o afogueado círculo luminoso. Restam apenas alguns pálidos raios que se estendem num saudoso adeus de sabor amargo, esticados ao acaso, num gesto de profundo desespero. Sinal de indecisão?

A noite debruça-se sobre as derradeiras brasas, sufocando-as com o seu grosso manto negro. O reino da noite começou, apenas rasgado pelo rosto tímido e pálido da lua, pendurada no céu. E a lua avança na passarela nocturna reflectindo a sua imagem no manso espelho aquático. As envergonhadas estrelas esperam que a noite as atraiçoe. Uma intensa mancha roxa sulca a água onde o céu se reflecte na imagem. A colónia de gaivotas, apeada numa faixa estreita de areia húmida, solta o seu canto de vozes desafinadas ao dia moribundo.

Deixo o horizonte alaranjado entalado entre o mar e a capa nocturna que desce lentamente do céu para abraçar definitivamente o mar, sufocando os raios. E a chama alaranjada apaga-se no horizonte marítimo com o sopro da aragem que ameaça soltar a sua revolta encoberta pela extensa capa negra. Nada disso! A noite, que cai pesadamente, apaga da tela marítima toda a nitidez. E, como se não bastasse, amarrou traiçoeiramente o vento e amordaçou-o, evitando a repetição do seu anterior mau comportamento.


tags: , , ,

publicado por fatimanascimento às 03:33
Terça-feira, 01 de Junho de 2010

Eram pequenos, frágeis, envoltos numa macia capa de penugem amarela. Adorava aqueles pequenos seres! Observava-os do lado de fora, por entre a rede de malha larga correndo, em grupo, atrás da altiva mãe que mais parecia um general orgulhoso do seu pequeno exército, sobre as suas frágeis patitas, abrindo ocasionalmente as minúsculas asas para se equilibrarem. Num universo de adultos, aqueles minúsculos animais, que haviam rompido as cascas ovais, com o tenro bico, diante dos meus expectantes e maravilhados olhos, eram os que mais se assemelhavam à minha pequena e rechonchuda estatura. Sempre que acordava, a minha memória voava ao encontro das adoráveis criaturinhas. Uma manhã, não resisti. Entrei na capoeira e agarrei um pinto. A galinha que se mantivera sempre vigilante aos meus actos, tentara fintar-me sempre fielmente seguida pela sua prole, que se mantinha numa formatura tão apertada que mais se assemelhava a um manto amarelo. Peguei num assustado pintainho que se debatia ferozmente na minha pequena mão. Por uma ou duas vezes, quase o deixei a cair, não fosse a minha redobrada atenção! Sentia o seu coração pequenino a bater descompassadamente. Saí com ele aninhado entre a minha mão e o vestidinho de alças. Passeei pelo terreno dos meus avós, acariciando-o sempre para lhe transmitir toda a ternura do meu coração. Passados uns instantes, o animal descansava pacificamente nos meus braços, fechando as pálpebras brancas. À noite, era sempre um tormento separar-me dele. Ficava agarrada à malha tecida de hexágonos, fitando-o de tal forma que parecia querer decorar os detalhes que identificavam o seu corpo tão semelhante ao dos irmãos. Nos dias seguintes, o tormento era semelhante àquele que experimentava com a separação: a minha mãe, conhecendo o descontentamento dos meus avós, proibia-me a entrada no galinheiro. Perseguia-a então com incessantes pedidos. Já aborrecida, entrava contrariada, no galinheiro apanhando o primeiro que encontrava dispondo-se logo a sair com o animalzito a espernear tentando libertar-se das mãos bruscas. Aos meus gritos de protesto, logo largava o pinto para tentar descobrir aquele que eu designava com o dedo e que mudava constantemente de posição dentro da ninhada. Cansada, largou o animal dizendo que fosse eu lá buscá-lo! Ora, se fora mesmo isso que eu sempre quisera…! Entrei precipitadamente na capoeira (não fosse ela mudar de ideias!) e olhei tranquilamente à volta. Com o alvo dentro do campo de visão, curvei-me para a frente de braços estendidos. Falhei. Voltei a tentar. Quase! Voltei à posição inicial. Novo golpe! Conseguira! Levantei-me satisfeita, com o animal a lutar contra as minhas mãos que o sujeitavam desajeitadamente. O seu coração parecia doido! Arrastei-o para aquela que passaria ser a nossa rotina diária. Os adultos tinham desistido dos protestos. À noite, lá voltava o animal para a sua família. Como esta ligação se tornasse muito forte, percebi que, a determinada altura, o animal já se sentia um estranho entre os seus. Esta percepção tornava a separação ainda mais difícil. O animal ficava sozinho, parecendo completamente desamparado. Era como se não o reconhecessem na comunidade! Nova intromissão dos adultos. Não poderia tirá-lo de lá, a não ser em certos dias que eles designariam. O animal tinha de permanecer o mais possível junto dos seus para aprender a ser como eles. Os animais aprendem imitando os seus progenitores. O meu entusiasmo murchou. A saudade da presença daquele frágil animal inofensivo era forte. Via-o passear-se pela capoeira ora acompanhado ora sozinho. Apreciava, orgulhosa, o seu crescimento, embora sempre acompanhada de um medo secreto. Iria ele esquecer-me? Daquele vigoroso corpo franzino cresciam penas coloridas e uma orgulhosa crista. O pânico invadiu-me como uma onda. Estavam a tirar-nos a infância! Já me custava reconhecer, naquele frango, o pintainho que tinha sido. Assaltei a capoeira e apanhei-o, depois de algumas tentativas frustradas. O animal desistiu de se debater, mas aborrecia-se nos meus braços e, como para me lembrar disso mesmo, bicava-me esporadicamente as mãos e os braços ou algumas partes do corpo escondidas debaixo do vestido. Retomava a rotina já sua conhecida, mas o animal já não se divertia tanto e estranhava aquela prisão forçada. Continuava, ao contrário do que esperava, a debater-se incomodado com a pressão dos meus braços, enquanto me observava com a cabeça ligeiramente inclinada. Percebi que não a posição mais indicada para um jovem galo. Tentei outras, mas todas pareciam não encaixar de forma a resultar confortável para ambos. Continuei a retirá-lo sempre do seu ambiente, até perceber, um dia, que já não era só a posição. Havia mais um motivo que o fazia detestar aqueles passeios e ansiar pelo seu regresso à capoeira. Mesmo nos meus braços, a sua cabeça voltava-se insistentemente na direcção da comunidade galinácea, debatendo-se furiosamente contra os meus braços, onde quase já não cabia! Bicava-me furiosamente sempre que me aproximava da capoeira numa fúria de libertação! Escolhi novos itinerários mantendo-me propositadamente afastada daquele local que parecia enlouquecer o frango! Não resultou! Um dia, quando me precipitava para o galinheiro, percebi que se mantinha junto de uma franga! Entrei ainda assim, mas, em vez de ter de lutar contra uma vontade, vi-me confrontada com dois agressores: o frango e a sua companheira! Percebi que encontrara alguém mais importante na sua vida! Saí dividida entre a satisfação e a tristeza da descoberta. Percebera, finalmente, que se iniciara para ele uma nova vida que, para mim, ainda não chegara! Ainda teria de esperar umas boas duas décadas até, finalmente, viver a situação do frango que se transformara rapidamente num belo galo!



publicado por fatimanascimento às 21:50
Sexta-feira, 16 de Abril de 2010

As ondas atiravam-se contras as negras rochas acompanhadas de um profundo e constante rugido feroz. O horizonte mantinha-se alinhado ao azul e sereno céu apagando-se, momentaneamente, na luzidia e elevação líquida prestes a enrolar-se sobre si deslizando suavemente sobre o seu duro e liso corpo, de onde se destacavam as grossas veias do esforço da elevação, orlado de uma macia e levemente intrincada renda aquosa de frios desenhos exóticos deslizando no rude areal como remate de um manto real. Só os rochedos travavam as duras investidas desmanchando o forte corpo de água em inúmeros fios que se infiltravam por entre os pequenos espaços livres dos encaixes das rochas. Alguns salpicos elevavam-se na leveza da alva espuma, soprada na forte brisa, e travada no rosto ausente. Do cimo do trono de volumosas pedras, um jovem e delicado corpo, de olhos fixos na linha do horizonte escurecida pela ondulação febril, parecia indiferente aos amuos da praia. A triste e solitária figura, recortada no verde metálico das vagas, coroava a tarde de um silêncio perturbador. O solitário e rasteiro corpo, ligeiramente curvado para a frente, parecia medir forças com a corpulenta massa de ar. E, para quem passava, mais não era do que isso! Uma massa sólida colada à rocha servindo de obstáculo ao obstinado vento. No entanto, não poderiam estar mais errados! A cabeça abrira uma janela na força da imaginação que sulcava as despenteadas crinas brancas do ruidoso e indomável mar. E um porto acolhedor desenhou-se à frente do olhar, abrindo os braços à misteriosa e aventureira nau fundeou nas serenas águas abrigadas e estendeu convidativamente o estrado de madeiras cruzadas onde o juvenil corpo se equilibrou para subir a bordo. E, recolhendo imediatamente a âncora, esticou as imensas velas, de panos esticados ao limite, e, submetendo-se à caprichosa brisa, rumou a paragens desconhecidas. E as paisagens modificavam-se: a norte, os abandonados areais brancos ondulantes como vagas cavadas nos abismos do mar, fustigados pelo impiedoso ar que vergava as finas hastes verdejantes ao seu pesado hálito salgado que murmurava segredos de histórias de saques e tesouros de piratas escondidos na alma arenosa. E os cenários sucediam-se. E, acompanhado a latitude do globo, descia até ao quente sol dos trópicos procurando o doce aconchego das águas dóceis e mornas, vestidas de azul forte contrastando com o forte verde-claro, limitadas de brancos e finos areais, rodeadas de verdes territórios virgens, de onde espreitavam nus corpos morenos curiosos e expectantes. E rendida à inocência do momento, o pequeno bote desceu até às águas cristalinas tendo como único ocupante o juvenil corpo que abandonava definitivamente a nau rendida aos encantos que se reflectiam na sua alma. Mas o bote começou a recuar na límpida água sugado num rodopio alucinante e a terna paisagem desapareceu dos seus olhos para se transformar numa espiral onde misturavam os mais diversos elementos deformados e terminar… na praia de onde partira momentos antes, e encontrou-se sentada no seu trono de pedra; o sol concentrava-se no seu mergulho luminoso e sentiu o bafo frio e húmido do mar na pele. A mão poisada no seu ombro e a voz masculina que resmungava baixinho:

- Assim não vale a pena vires à praia! Mais vale ficares em casa!

A menina sorriu docemente ainda levemente estremunhada. Ergueu-se e seguiu as passadas paternais. O que é que o pai sabia disso?



publicado por fatimanascimento às 20:15
Domingo, 03 de Janeiro de 2010

 

Olá! Eu sou o B. Tenho 19 anos e estou um pouco atordoado! O meu pai acabou de sair porta fora levando o inferno com ele. Segundo seguinte, eu e a minha mãe sentámo-nos extenuados. Foram cerca de dezoito meses, ou mais, de inferno! O bastante para acabar com a nossa família ou quase! Falto eu! Desculpem! Sei que não estão a compreender nada! Eu explico. Ou tentarei… O meu pai veio para nossa casa, depois de oito anos de separação e um divórcio rápido. Encontrara, finalmente, a mulher dos seus sonhos! Este sonho durou só oito anos deixando-o profundamente ferido nos seus sentimentos e orgulho. (Foi trocado pelo capitão!) Sentimento que antes não me lembro de lhe ver. Talvez porque não gostasse da minha mãe. Só isso explica tudo! Foram ainda onze anos de convivência! Talvez mais um mês ou outro! Não interessa! O que posso dizer é que, depois daqueles abençoados oito anos de paz e sossego, e quando menos esperávamos, ele bateu à nossa porta. Queria viver connosco. Ficámos admirados! A minha mãe cujos sentimentos por ele haviam terminado há muito, inesperadamente, recebeu-o. Parecia até feliz! Não compreendi nada na altura! Não fosse o passado sombrio dele! Segundo recordo, é mais ou menos isto: o meu pai e a minha avó converteram-se ao mal quando este tinha oito anos! Ela foi e levou-o. Isto nada teria de mal, não fosse ele usar essas energias maléficas sobre nós: eu, a minha mãe e as minhas irmãs. Pode dizer-se que saímos daqueles onze anos de convivência armadilhados. Todos nós. Talvez mais a minha mãe por quem ele nutre um ódio incomensurável (ele e a mãe!). Percebi-o nos seus comentários e atitudes durante os oitos anos de separação. Retomando o fio à meada: ele veio viver connosco. O ambiente? Já o descrevi: um verdadeiro inferno, para quem vivera feliz durante estes oito anos! Como é que ele conseguiu entrar aqui em casa apesar de todas as expectativas apontarem para o contrário? Está-se mesmo a ver: as suas malditas artes negras! Ao sairmos, após onze anos de relação próxima armadilhados, foi fácil! Bastou-lhe um pouco de esforço! O resultado da sua integração no nosso meio familiar foi desastroso! Não se integrou, pura e simplesmente. Durante a sua presença, vivemos uma espécie de inferno, como já disse! Vivíamos, como lhes hei-de explicar? Vivíamos num ambiente de permanente ansiedade e tensão misturada com alguma discussão. Ah, mas isso só acontecia quando ele saía de casa! Quando ele estava, o ambiente parecia melhorar inexplicavelmente. Assim que ele partia… Nós, que levávamos uma vida calma e serena, não resistimos. A minha mãe vivia sempre num misto de ansiedade e tensão e com uma inexplicável mania da limpeza que ela nunca teve! Nunca se interessou por tal! Fazia o que tinha a fazer sem mais preocupações! Ele, que fazia tudo ou quase tudo, durante os oito anos passados com a mulher dele e a filha desta, aqui não fazia nada. É um rei e senhor de uma casa que não é dele e de uma família à qual ele já não pertence ou nunca pertenceu, se querem saber a minha opinião! Só lhes posso dizer que, em poucos meses, a nossa vida deu uma volta de cento e oitenta graus! As minhas duas irmãs, que eu adorava, morreram em dois trágicos acidentes. Vítimas talvez do ambiente gerado com a presença daquele homem! Da nossa família de quatro pessoas, só resto eu e a minha mãe! Como devem calcular, o sofrimento partilhado por aquelas duas queridas perdas, acompanhar-nos-á para toda a vida! Eram as pessoas que mais gostávamos! Houve mesmo uma altura em que temi pela minha própria vida! Mas não, ele acabou de sair! Encontrou outra mulher! Foi-se embora levando metade do dinheiro do IRS recebido este ano! Julgo que estava à espera deste dinheiro para sair! Se assim foi, abençoado dinheiro! Devia ter vindo mais cedo! Mas, para quê? Não teria salvo as vidas das minhas irmãs! E, após aqueles meses infernais, estamos, finalmente, sentados em duas cadeiras olhando um para o outro, um pouco atordoados, sem sabermos o que fazer da vida. Há, contudo, uma certeza: o ritmo infernal em que vivíamos acabou. Definitivamente! Voltámos ao que éramos! Só que em menor número! Olhamo-nos angustiados! Não com a saída dele! Não! Não estamos tristes com a partida dele, só com a casa vazia! A alegria que a minha irmã mais nova trazia a esta casa, apagou-se! Definitivamente! A inteligência e a segurança que a minha irmã mais velha nos dava… acabou! Não sei se alguma vez iremos recuperar destas perdas! Acho que não! Teremos de aprender a viver com elas. Mas as minhas irmãs viverão sempre connosco! Quanto ao meu pai, terei de continuar a chamar-lhe tal e fingir que nada aconteceu! Para meu bem! Embora sabendo que mesmo estando fisicamente ausente, a sua magia negra acompanhar-nos-á sempre até ao fim da vida! Como uma maldição! Eu estava nos bombeiros, já fizera mesmo a recruta e gostava daquele trabalho! Tinha mesmo vocação para aquilo! Por alguma “estranha” razão, deixei, pelo que me sinto perdido tal como a minha mãe. Ele destruiu-nos. O que eu sei é que, embora o meu pai esteja fisicamente ausente, como já disse, teremos sempre de viver com as suas artes mágicas bem avançadas que nos acompanharão pela vida fora! Digo bem avançadas porque não parece haver solução para tal. E não nos podemos queixar ou pedir ajuda! Afinal, estas coisas não existem! Só para nós!

Para que escrevo isto? Talvez para evitar que estas memórias, apesar de amaldiçoadas, jamais venham a ser apagadas da minha memória! Apesar de amaldiçoadas, são minhas! Ninguém tem o direito de apagar seja o que for da memória dos outros! Nem mesmo as artes negras têm! Sobretudo estas!

 

Fátima Nascimento

 



publicado por fatimanascimento às 22:12
Sábado, 05 de Dezembro de 2009

À minha prima Carmita, filha do "Garralhéu" e da Maria dos Anjos, emigrante na Suíça, cuja infância está tão ligada à minha, assim como a amizade.

 

Perdida no alto de uma volumosa e calva colina arqueada, observava indolentemente a passagem das estações estendidas nos vales abertos à sua volta. Os casebres amontoados à volta da estreita rua principal, protegendo-se instintivamente das agressões climáticas - as chuvas grossas e o impiedoso vento semeado de gelo que assolava aquele sereno cume - acolhiam as numerosas famílias como galinhas aconchegam os ovos. Os serões eram passados à lareira, frente às brasas amortecidas, pobres descendentes das chamas altas que, algum tempo antes, haviam cozido a janta, contando histórias de outras épocas, assanhadas pelos uivos do temporal e o barulho das bátegas contra a frágil vidraça. A memória folgada e o vacilante calor, verdadeira bênção para os pés mal protegidos, preparavam-nos para a longa noite de sonho aconchegante. Lá fora, as gastas pedras da rua principal, vergavam à força da impiedosa água caída do céu. À sua volta, os carreiros lamacentos cediam ao peso da água acumulada que reflectia o frio céu cinzento. O fumo das pequenas e estreitas chaminés era esmagado pelo poderoso vento dominante que ameaçava as alegres chamas crepitantes mais a baixo. A aldeia sucumbia ao negro, gelado peso da noite, para acordar estremunhada e friorenta.

As casas de escura pedra laminada, fechadas à invernia, desabrochavam com o calor primaveril. As pessoas pobres retiravam os animais do curral e apresentavam-lhes pastos fartos de erva tenra; os arados e os animais cediam aos apelos dos campos à espera de serem rasgados e fertilizados. As sementes desciam à terra cantando sob a luz farta do sol. As folhas tenras espreguiçavam-se nos nodosos ramos nus e os dias alargavam-se à preguiça das horas. As pessoas cruzavam agilmente as ruas nas suas vozes cantantes, tropeçando em bandos de crianças que exploravam a rua nas suas ziguezagueantes correrias perseguidoras da bola de trapos e os mais idosos empurravam os bancos para fora das casas, em busca do generoso sol que os embalava no seu morno torpor debaixo do inseparável boné ou chapéu negro, comprado no mercado semanal da pequena vila mais próxima, invariavelmente puxado para os olhos, as mãos descansando sobre a fiel e volumosa bengala de madeira clara e pé protegido por uma redonda e fina borracha negra. Ocasionalmente, passava um outro, vergado sob o peso dos anos, encostado a um ramo grosso, apertado na mão, que parava para cumprimentar o seu companheiro de geração tratando-o alegremente pelo nome.

Os longínquos poentes, vestidos de um laranja-avermelhado, adornavam o baixo céu coberto de promessas. O verão atirava as pessoas para o convívio das ruas. A festa engalanava a aldeia e acumulava os residentes na comprida mesa e na pequena igreja enquanto a música se esticava no ar. O regresso dos emigrantes alegrava e enchia de abraços saudosos os recém chegados. Quase todos estavam ligados por laços familiares mais ou menos compridos. Alguns já se haviam perdido na longa linhagem. Casamentos entre jovens de terras vizinhas davam perdas e ganhos à gasta população. As manhãs acordavam cantando na tonalidade das vozes que repetiam saudações cordiais. A voz de uma rapariguinha de redondos olhos perdidos e cabelos encaracolados que chamava “Ah, ‘inha mãe” na sua bonita e rouca voz grossa. O cheiro do café acabado de fazer, a mesa posta de pão e queijo e o leite em pó magro para misturar à negra bebida escaldante. O café da aldeia mantinha as portas abertas como acolhedores braços estendidos, a todos os que o procuravam no calor das noites, guiados na sua luz forte que o transformava em verdadeiro farol nas ruas iluminadas pela branca luz das noites.

O Outono, nas suas folhas amarelecidas, ganhava fôlego para a confrontação com o impetuoso Inverno. Aproveitava-se a morna luminosidade enfraquecida do verão. Os passos apressavam-se como se receassem algum mau encontro. Os corpos vergavam-se à aragem fria recolhendo-se nos largos xailes de lã escura. As velhas arcas enchiam-se de provisões e das chaminés pendiam os enchidos. A água-pé descansava nos pequenos barris da adega. Tudo parecia a postos para a próxima e mais difícil etapa.

 



publicado por fatimanascimento às 19:59
Quarta-feira, 02 de Dezembro de 2009

Foi num dia de Setembro. Um Setembro luminoso e morno como não haveria outro tão depressa. Em Paris, diziam-me que lhes trouxera sorte, uma vez este mês se veste sempre de cinzento e se perfuma de frio. Foi um mês excepcional em quase todos os aspectos. Confiante na língua estudada, vagueava pela capital do Sena, aberta a todos os estímulos, sentindo a pulsação da bela cidade. Saía a pé, quando a manhã ainda mal acordara, e, sem rumo definido, deambulava pela cidade, escolhendo pontos ainda não percorridos quais mares ainda não navegados. Nessa radiosa manhã outonal, dirigi-me ao Parc Monceau. Ficava perto do local onde me hospedara, o que me lavava a visitá-lo quando cansada das longas caminhadas. Costumava ali encontrar pessoas nos seus passeios matinais com as quais entabulava invariavelmente conversa. Certa manhã, conhecera já um senhor, já de certa idade, de chapéu e casaco compridos escuros. Simpatizámos à primeira vista um com o outro. A conversa desenrolou-se entre nós sem dificuldade nem interrupções. Pensávamos da mesma maneira sobre muitos assuntos e concordávamos ainda em muitos outros. A conversa desenrolou-se como um desfile de moda na forma como os assuntos se iam sucedendo numa sede de descobrirmos mais sobre o que outro pensava sobre os temas abordados ou juntava àquilo que já pensávamos. Foi das conversas mais gratas que tive com alguém, conhecido ou desconhecido. Nunca encontrara tanta erudição numa pessoa! Conversámos até perdermos a noção das horas! Até um de nós ter de regressar! Nunca cheguei a saber o seu nome. Nunca perguntei. Sei que este simpático e culto desconhecido permanece ainda hoje, e passados tantos anos, na minha memória, passeando-se entre aqueles canteiros ou sentado num banco de um dos jardins parisienses mais belos. Outra manhã, vagueava entre os mesmos canteiros multicoloridos, as grossas sebes bem aparadas e o repuxo de água límpida, quando entrou no meu campo de visão um carrinho de criança empurrado por uma senhora de uniforme negro e branco. Deduzi que se tratava da sua ama. Reparei que não se tratava de uma criança qualquer. O vestuário revelava uma boa situação financeira familiar. Captou-me a atenção. Sentei-me num banco, observando delicadamente o pequeno ser extraordinariamente belo que parecia abarcar o mundo com os seus olhos rasgados de longos cílios. Os meus olhos poisaram suavemente no rosto estreito, nos traços perfeitos do rosto, nos olhos mais azuis que jamais encontrara e a cabeleira ondulante de um loiro ofuscante. Da sua pele, de uma brancura imaculada, destacavam-se as suas delicadas veias azuis das têmporas. Toda a sua estrutura física revelava uma elegância, delicadeza e fragilidade enormes. Do seu pequeno ser desprendia-se uma serenidade e uma auréola brilhantes que a assemelhavam o pequeno ser a um anjo. Era uma menina. Não devia ter mais de três ou quatro anos. Sentindo-se observada, os seus olhos desviaram-se de encontro aos meus. Fitámo-nos durante uns instantes, os suficientes, para perceber que nunca vira ser tão belo na minha vida! Mais um ser que se passeia nas minhas memórias, por entre sebes e canteiros, numa ensolarada manhã parisiense de Outono!

 



publicado por fatimanascimento às 18:35
Terça-feira, 01 de Dezembro de 2009

 

Recordo-a com uma nitidez que assusta, é como se eu nunca tivesse saído de lá. As manhãs acordavam invariavelmente frias e húmidas, assim como as noites, só as tardes eram quentes e aprazíveis. A costa acordava invariavelmente imersa num nevoeiro branco, denso e agreste que cobria tudo. Acordava cedo, com o barulho das ondas a desfazerem-se na praia, o cheiro a maresia a insinuar-se nas narinas e a aragem fria penetrando pela janela quadriculada de guilhotina. A construção frágil tinha uma decoração simples a condizer: dois quartos de casal, um de duas camas, uma casa-de-banho, a cozinha e o hall de entrada situado atrás da meia parede branca desta última. Ali, havia uma cama de ferro de corpo e meio igual ao quarto de duas camas destinado sempre aos miúdos. Muitas vezes ficámos sozinhos mas outras tínhamos a companhia de outro casal com uma filha. A porta, virada aos pés da cama, era atravessada pela luz crua e fria da madrugada. Dela podia ver-se a segunda fila de casas amarelas que ladeava a rua principal e, depois dela, as outras duas desenhavam-se mais ao longe. Da outra porta da cozinha, virada a oeste, avistavam-se as dunas brancas de areia fina e macia, que se estendiam até à praia; todas elas cobertas de vegetação rasteira e fina, e de outra de folha mais larga e recortada de picos, e as camarinheiras mostrando o seu fruto branco, arredondado, minúsculo e amargo, ondulando mansamente ao vento fraco e fresco de Setembro saturado de maresia. Do lado oposto do bairro, a elevada ondulação de areal, alisada pelo vento caprichoso, sustentando as raízes dos altos e esguios pinheiros bravos. As ruas desenhavam uma elipse à volta das quatro filas do bairro, cortada ao meio por outra mais larga, ao fundo da qual estava o café-mercearia. A norte, o bairro era limitado pelo leito do rio preparando-se para desaguar nas salgadas águas do oceano, mais à frente, junto das rochas negras e rugosas, que ornamentavam ambas as margens do rio, junto do estreito estuário do rio. Todo o leito estava emparedado por rochas geometricamente talhadas e dispostas disciplinadamente umas em cima das outras, que impediam as águas de sair das suas margens naturais. Do outro lado, recomeçava o areal fino rigorosamente vigiado pelo exército de altos pinheiros. Era precisamente o rio que demarcava a fronteira territorial das duas localidades vizinhas confinadas a norte. A sul, para lá das dunas planas, semelhantes a um deserto branco, que se estendiam por breves quilómetros, as primeiras casas, aninhadas atrás da grande duna que as separava da praia, belas vivendas de veraneantes assíduos, distribuídas por ruas paralelas, cortadas por outras filas de casas e ruas que se encaminhavam para a beira-mar. Estas dunas eram limitadas a leste pelos muros da escola primária e pela fila de casas que ladeavam a única estrada que ligava o bairro à aldeia de pescadores. Da aldeia de pescadores, cujas casas e ruas estavam perpendicularmente dispostas, destacava-se a igreja, junto à entrada da localidade, toda construída de altas tiras de madeira escura envernizada, e cujo campanário se erguia acima de todas as outras construções mais próximas, estas mais baixas e modestas. Em momentos de mau tempo, várias pequenas figuras delgadas, escuras e esvoaçantes corriam em direcção a ela, vindas de várias pontos da aldeia, ao toque do sino, deixando cair atrás delas pedaços de gemidos, gritos e orações começadas à pressa e em aflição. As mais novas corriam à praia e outras aos rochedos de onde perscrutavam ansiosamente o horizonte, à luz dos relâmpagos, à procura daqueles compridos, coloridos e altos barcos a remos que tinham partido ainda de madrugada e ainda não haviam voltado da faina. As vozes entrecortadas pela aflição, dirigiam preces ao céu cinzento abafadas pelo vento e o barulho da cortina de bátegas grossas desfazendo-se nos rochedos. As mãos, de dedos fortemente cruzados, faziam eco surdo daquelas soluçantes vozes. Manchas mirradas e escuras engrossavam o magro grupo, nas lamentações e nas preces, estas mais baixas, graves e cheias de fé, das quais se destacavam os gritos agudos das vozes mais jovens, temendo o pior… Algumas, já quase desfalecidas, deixavam-se conduzir pelos braços da razão, virando sempre o rosto na direcção do mar, numa esperança que se despedaçava contra aquele horizonte negros. Lentamente, a praia foi-se esvaziando, despedindo os gritos e as preces em todas as direcções. Dos rochedos, lutando contra o desespero e a angústia, apenas iluminada luzes rápidas dos relâmpagos, uma mancha dobrada sobre si mesma, resistia à intempérie. Subitamente, um grito lancinante libertou-se e atirou-se contra a fúria da natureza, rasgando tudo à sua volta, abrindo caminho até ao céu carregado. Mas nem sempre era assim, naquela pequena comunidade, onde toda a gente se conhecia, se ajudava. O casamento, os baptizados e as demonstrações de fé eram momentos de alegria onde toda a gente participava. Depois, a busca por uma melhor vida, levou os filhos daquela terra a procurarem um meio de vida melhor e mais seguro, e, os que não partiram em busca de terras desconhecidas, procuraram outros empregos em cidades próximas, mas, a pesca está-lhes na veias e eles, nas férias, feriados e dias livres reúnem-se, pela manhã, pegam nos barcos de seus pais, ou noutros já construídos por eles, e entram pelo mar dentro, estendendo a rede cujo traço é desenhado pelas bóias à superfície. Ao fim da tarde, a faina repete-se, e, embora já não se faça por necessidade, ela faz-se sobretudo pelo amor ao mar gosto e aos ensinamentos que pais e avós lhes transmitiram e que eles querem preservar transmitindo-os aos filhos… A paisagem também se transformou, e os prédios altos, substituiram as vivendas e invadiram as dunas, destruindo toda a beleza natural e a alma daquela localidade.

 



publicado por fatimanascimento às 18:50
Quinta-feira, 03 de Setembro de 2009

 

A tarde desceu alegre e serena. A brisa marítima acariciava o calor da tarde abrandando os fortes raios solares. A macia areia dourada e morna agitava-se timidamente debaixo dos nossos pés espelhando os trémulos leves ramos dos altos arbustos. À nossa volta alongava-se, a perder de vista, a imensa península, abrindo caminho pelo oceano. Atrás, os adormecidos prédios altos que teimavam em resistir à ruína. Saímos, lado a lado, à descoberta daquela imensa superfície. Que direcção tomar? Escolhemos a que revelava alguma vegetação, no sentido contrário à zona árida. De um lado, mar e vegetação que emoldurava a extremidade da do areal. Do outro, alguns complexos, mais modernos, que tapavam o oceano. Olhámos em frente, combatendo a brisa forte que agitava fortemente os nossos cabelos. Partimos à descoberta do local. Avançávamos cautelosamente, avaliando os rostos masculinos que se cruzavam connosco olhando-nos com admiração e um outro sentimento indefinível que não nos fazia sentir seguras. Os rostos pareciam multiplicarem-se à medida que avançávamos, movendo-se em grupos maiores para logo alternarem com outros menores. Obedeci à sugestão sussurrada ao meu lado. Voltaríamos ao nosso poiso, como um bando de pássaros assustados, para voltarmos mais tarde, quando houvesse menos rapazes. Que acontecia ali? Demos meia volta e apressámos o passo, remando na direcção das intermináveis ondas masculinas de um rio indomável. A meio caminho, uma voz masculina interpelou-nos, enquanto as outras, em grupo, murmuravam, um pouco mais adiante, enquanto a esperavam, olhando-nos de forma avaliadora. Trocámos algumas cautelosas palavras com aquela excitada voz, avaliando o grupo que formara um casulo sussurrante, que logo se juntou às restantes. Onde teríamos nós caído? Que acontecera ali? O paraíso transformara-se subitamente num inferno frio. Logo atrás, uma outra onda masculina se formara e ameaçava abater-se sobre nós, como o mar invernoso contra as paredes da marina. Avançámos algo confusas medindo sempre a distância que nos separava desses grupos. À medida que caminhávamos, a aproximação dos altos e protectores prédios, que nos alojavam por alguns dias, fez-nos retomar a confiança. Olhámos por cima do ombro vendo os novos complexos engolir aquela interminável torrente masculina. Os últimos grupos já nem reparavam em nós. Sorrimos de alívio, algo cansadas da tensão vivida momentos antes. Reunimo-nos, junto da janela, observando o mar sereno que nos olhava convidativo. Os raios oblíquos vestiam o mar de palhetas douradas que ondeavam como gaivotas douradas ao sol. O rio humano que sulcara horas antes aqueles caminhos pareciam haver secado, abandonando o local à paz dos seus elementos naturais. O caminho estava livre. Era nosso. Chegara a nossa hora. Iríamos descobrir aquelas paragens que nos aguardavam de braços abertos.

Passeámos junto do mar, deixando a água límpida acariciar-nos os pés nus. Rimos e brincámos como duas universitárias em férias. A dado momento, algo prendeu a nossa atenção. Parámos e varremos as águas que se instalavam dentro do nosso campo de visão. Seria possível? Uma onda de alegria tomou conta de nós. Estaríamos a sonhar? As formas aproximaram-se alguns metros do local onde nos encontrávamos. Três focinhos, desenhando um triângulo à superfície como um minúsculo arquipélago, adornados de dentes finos, abriam-se em alegres sons guturais, olhando-nos com uns ternos olhos brincalhões, agitando a água de tempos a tempos, como se nos incentivassem a aproximar. Entrámos lentamente na água, tacteando a areia debaixo dos pés, à medida que nos afundávamos na água, tentando tocar-lhes sem, contudo, conseguirmos realizar esse momento de íntima felicidade que é o toque entre ser humano e animal. Um deles ultrapassou a barreira formada pelos dois progenitores e aproximou-se mais. Tratava-se do mais pequeno. Era tão encantador na forma como comunicava connosco, que ficámos hipnotizadas pela sua presença. Batia com a barbatana peitoral na água encorajando-nos a ir ter com ele. Avançámos com os olhos postos nele, até sentirmos a água a engolir-nos. Entreolhámo-nos frustradas. Não conseguíamos avançar mais, nem ele. Ele parecia querer apagar a distância, que era mínima, entre nós. Correria o risco de ficar preso nas areias? Depois de várias tentativas, de ambas as partes, o contacto não passou da corrente de energia benéfica a que chamamos empatia. Subitamente, os nossos olhos desviaram-se na direcção de um outro som familiar já familiar mais longínquo que parecia querer captar atenção de alguém. Outro golfinho! Os nossos inesperados visitantes ainda se mantiveram uns momentos mais junto de nós, até perceberem que a situação não avançaria para além do que havíamos experimentado. Foi então que, com alguma relutância, se foram movendo puxados pelo som que os orientava.

Olhámo-los longamente, acompanhando-os na sua viagem de regresso. Uma onda de saudade varreu-nos a alma. O mais pequeno voltou-se para nos observar uma última vez, antes de partir definitivamente. Levámos as emocionadas mãos à boca. Nunca uma presença tão breve nos enchera de tão profunda felicidade!

O silêncio abateu-se sobre nós no regresso. O sol, já meio encoberto pelo mar, acenava num breve e aquoso adeus em tonalidades de laranja.

- Sabes que os golfinhos não se aproximam de todas as pessoas? – perguntou a voz sonhadora ao meu lado, retirando-me do meu estado de pura felicidade.

Fátima Nascimento



publicado por fatimanascimento às 14:05
Terça-feira, 16 de Junho de 2009
Eram dois. Ambos muito ágeis e curiosos deslocando-se nas suas delicadas patas rosadas, uma fina cauda da mesma cor e um focinho afilado de onde sobressaíam dois vivos olhos atentos e escuros, muito redondos. As finas orelhas espetadas, os longos bigodes semelhantes a delicadas antenas direitas e flexíveis, uma boca pequena, aberta a toda largura do focinho, evidenciava dois compridos dentes afiados, bem juntos, logo abaixo do atento nariz farejador, onde se abriam duas covinhas.
Vieram num cintilante dia de Primavera, com o sol espalhando nobremente a sua luz vertical numa dádiva sem precedentes.
Julgo que eram dois machos. Embora fossem praticamente iguais, nós fazíamos a distinção entre eles, através do carácter dócil daquele que a dona de “Chiquinho”. Eu nunca os distingui, embora a dona sustentasse que os reconhecia. Sempre que brincávamos, eu ficava com o amigo do Chiquinho, de quem nunca me lembrava o nome, e que eu receava, dado o seu instável carácter. Como o irrequieto animal sentia o temor gerado dentro de mim, embora eu me esforçasse sempre por o ultrapassar, ele passeava a sua insegurança das minhas mãos para os meus braços, numa rápida busca por um local abrigado e seguro.
Numa manhã de brincadeiras, igual a tantas outras, voltámos a retirar os animais da gaiola e colocámo-los nas mãos, evitando sempre a possível fuga. Nesse dia, o amigo do Chiquinho estava particularmente instável. Deslocava-se pelas minhas mãos e braços a uma velocidade vertiginosa, sem que eu conseguisse acompanhar os seus apressados movimentos. Nunca percebi o que se passou com o animal, cuja instabilidade parecia roçar a loucura. Os seus bruscos movimentos serpenteantes quase fizeram com que fugisse. Apertei-o na minha mão, mesmo a tempo! De repente, sentir uma aguda dor subir pelo meu indicador esquerdo. Fixei os olhos no local. Os longos e finos dentes do minúsculo animal encontravam-se cravados no dedo, rompendo a fina pele rosada. Do golpe jorrava um fio de sangue vermelho. Passei o animal à minha colega de brincadeiras que correu a colocá-los na gaiola. A mãe correu ao chamamento da filha. Avaliou o estrago no dedo com serenidade. Desinfectou a ferida e enrolou o dedo em alva gaze fina. Fomos proibidas de voltar a brincar com os ratitos. A minha colega amuou. A culpa havia sido minha! Apertara demasiado o pobre e frágil animal e ele defendera-se da única maneira que conhecia – mordendo.
A confusão gerou-se mais tarde. O problema das doenças! Adultos, de cabeça perdida, trocavam ideias abstractas sobre o acontecimento. O medo imperava. E as situações hipotéticas sucediam-se, agravando a situação. Senti-me perdida no meio da confusão. Tudo se resolvera e, agora, aquilo! Raiva? A grave doença que ataca os cães e os conduz, numa viagem relâmpago, à morte? Até o senhor que oferecera os animais foi incomodado, garantindo que os animais haviam nascido em cativeiro e sempre tinham sido saudáveis. Decidi não me preocupar com assunto! Os adultos faziam-no por mim! Mantive a serenidade, pensando sempre que tudo se resolveria, embora a ideia de apanhar raiva não me fosse particularmente sedutora!
Só a passagem do tempo serenou os ânimos! O acontecimento, passados alguns dias, não parecia já tão avassalador. E o dedo, esse, recuperava animadoramente sem vestígios de qualquer tipo de infecção! Ficou a estreita e minúscula cicatriz leitosa, em forma de meia-lua deitada, encostada à unha, e responsável pela intrigante doce memória!


Fátima Nascimento


publicado por fatimanascimento às 13:13
mapa anual
Visit http://www.ipligence.com
Mapa diário
mais sobre mim
Dezembro 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


links
pesquisar neste blog
 
contador
leitores on line
subscrever feeds
blogs SAPO