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Terça-feira, 05 de Junho de 2007
Chegaste numa tarde quente e abafada de Agosto. Eras pequeno, todo vestido de castanho, com uma capa e máscara negras, de onde mal se distinguiam os olhos. Estavas muito quieto, sentado na traseira de uma carrinha branca, a cabeça de lado manifestando um inteligente interesse pelo desafio que te rodeava. Nem sinal de trauma por te terem arrancado violentamente ao teu meio familiar, nem sinal de medo frente ao desafio que era a tua nova vida. Nada. Só uma curiosidade meiga e divertida e um interesse profundo por tudo o que te rodeava. Entreolhámo-nos. Tu com a tua cabeça à banda, espreitando pela porta traseira da carrinha, dentro da tua gaiola , eu extasiada, de olhos muito abertos, completamente rendida à tua beleza. Não sei quanto tempo estivemos assim. Não parecias cansado depois de duas viagens consecutivas, uma até à capital, a outra de lá até à província. Só uma fragilidade se desprendia de ti. Depois dos trâmites normais, chegou a altura de pegar em ti. Peguei em ti com um cuidado e uma ternura muito grandes, como se fosses feito de um material muito raro e frágil, e tu entregaste-te com uma confiança que me enterneceu ainda mais. Desde aqueles primeiros momentos, a amizade entre ser humano e cão estreitou-se para sempre. Era como se um fio invisível, intenso e forte nos ligasse. Com o tempo, foste crescendo sempre fiel, sempre divertido, sempre amigo, sempre meigo. Nunca me desiludiste. Foste sempre aquilo que eu esperei de um cão. Eras um membro mais na nossa família, o quinto de quatro membros. Protegias-nos com a tua vida, aquela que tu nos confiaste sem reservas. Lembras-te da nossa visita à cascata? Aquela em que tu e os miúdos se divertiram tanto, que sairam cansados de lá. As explorações, os salpicos e o ruído da cascata, a paisagem em redor deram uma tarde de intensa actividade. A tarde morna convidava ao irrestível banho nas esverdeadas águas límpidas e sedosas e os risos das crianças misturavam-se com os teus alegres latidos. Este foi um dos poucos momentos de felicidade plena. Quando regressámos foste cercado por cinco pequenos cães rufias, que se sentiam fortes por não terem uma trela como tu e pelo seu número superior. Tu ladraste tentando mantê-los à distância. Mas eles insistiram, rodeando-te. Tu, já impaciente com a insolência deles, ladraste com mais força baixando a cabeça na direcção deles, qual touro pronto a investir, avançando na sua direcção. Reparaste como os cobardes fugiam?Foi só o Bruno dar-te mais trela. Mostraste que não tinhas medo. Mas não lhes fizeste mal. Assim que eles te mostraram a cauda, desinteressaste-te deles. Lembras-te daquela vez em que, pela primeira vez, fomos ao treino com o senhor João? O senhor que nos levou lá tinha três cães, todos pastores alemães como tu. Ele quis mostrá-los. Estavam enfiados na bagageira de um carro, de orelhas enfiadas numa espécie de moldes para não quebrar as frágeis cartilagens das orelhas. Lembras-te como eles se atiraram a ti raivosos? Odiei aqueles cães! Tu permaneceste impassível, muito atento, mostrando as tuas boas intenções, mas em estado de alerta... foste de uma nobreza notável, só muito raramente presenciada em muito poucos cães. Um verdadeiro príncipe dos cães! Sim, porque a nobreza não está na genealogia, mas na alma. E mostraste-a sempre que precisaste dela. E se tu tinhas uma árvore genealógica importante! Descendias de verdadeiros campeões! Mas nunca fizeste alarde de tal proeza! Não precisavas. Tu sabias o que valias... aliás, sempre soubeste, não foi? Melhor do que qualquer olho humano mais inexperiente em conhecimentos caninos... Amo-te! Amar-te-ei até ao fim dos meus dias e depois também!

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publicado por fatimanascimento às 02:08
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