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Segunda-feira, 08 de Setembro de 2008
Junho de 1974. O sol dourava as tardes refrescadas pela mansa brisa que sacudia a folhagem das árvores. Na terra batida à mistura com a pedra desenrolavam-se as mais diversas brincadeiras. Os risos elevavam-se serenamente no ar. Contudo uma nuvem assombrava, por vezes, o meu espírito: o exame da 4ª classe estava aí. Já havia a certeza de que tudo se manteria como antes do 25 de Abril. Iria ter de enfrentar esse espectro. Havia, porém, uma boa notícia – podia-se usar esferográfica em vez daquelas gordas canetas de tinta permanente, que a minha mão, dotada de pequenos dedos rechonchudos, não conseguia agarrar convenientemente. Já fizera uns treinos, em casa, na mesa da cozinha, mas a cópia acabava sempre com um ou mais borrões, originados pela queda da deselegante caneta, para já não falar da letra que ficava desfigurada com tal objecto. Estraguei uns quantos aparos à minha caneta de tinta permanente e o aparo de duas pertencentes ao meu pai, que eram de uma marca cara! E estava cansada daqueles treinos inglórios!
Umas semanas antes, a minha professora da escola primária havia conversado com a directora da mesma e tinha-lhe mostrado alguns cadernos das suas alunas, o meu incluído, para defender a sua tese: conseguir a autorização do Ministério da Educação para o uso das esferográficas (que todas as alunas já usavam) quebrando, deste modo, a hegemonia das canetas de tinta permanente. A resposta afirmativa ao pedido viera quase de seguida. Houve uma grande alegria geral. Contudo, aquele exame ainda era, para mim, um obstáculo que eu temia.
Fiz o exame, com as minhas inseguranças habituais, lutando contra um nervosismo intenso. Nada de novo. Havia uma prova escrita, no formato das até aí realizadas em papel de 25 linhas, com a mesma dobra lateral e o mesmo vinco superior certinhos, com a mesma estrutura das realizadas durante esse ano lectivo (e os prévios!) e, depois, mais uma oral onde éramos interrogadas sobre a matéria leccionada. Era nesta que estava incluída a prova do trabalho manual, embora realizada num outro dia. Nunca percebi bem isso…
Como sempre fazia, quando algum assunto me incomodava, eu desligava-me dele, tentando concentrar-me em assuntos mais descontraídos. Foi por essa altura, que uma vizinha minha, que andava no mesmo ano e na mesma turma, adoeceu. Pediram-me para lhe dar o recado do artefacto manual que se tinha de levar já meio feito, pois não havia tempo para o fazer todo durante a prova. Dotada de uma distracção crónica, ao mesmo tempo que evitava pensar no exame que me incomodava, eu esqueci-me de a avisar. Eu própria fiz o meu na véspera, quando a noite já ia avançada. Lembrei-me da minha colega, mas não fui autorizada a sair. Dormi com o coração apertado mas, no dia seguinte, inexplicavelmente, não me lembrava de nada. Só no caminho para a escola, quando uma colega se juntou ao grupo e falou no assunto, é que eu aterrei. A minha colega ficou aflita, pois não trazia nada com ela. A recém chegada colega prometeu arranjar-lhe um trabalho dela que não lhe saíra lá muito bem. Foi a casa a correr e regressou com aquele artefacto na mão e os utensílios necessários ao resto da confecção. Não era muito mas ajudava. Olhámos o artefacto. Tratava-se de um defeito mínimo! Durante a observação dos artefactos realizada pelas professoras do júri, lembro-me de ter o coração apertado, desejando que nenhuma delas desse pelo defeito que era mínimo! A outra deu pelo ínfimo defeito, logo desvalorizado pela minha professora! Ficámos todas na dúvida! E todas com os olhos postos em mim!
Tudo correu bem até à saída das notas, quando reparei que ultrapassara uma das melhores alunas da turma que era a minha vizinha. Eu tive 15 e ela teve 14 valores. Foi o descalabro! Os pais acusaram-me de ter sido a culpada daquela nota, insinuando que fizera tudo de propósito para a prejudicar! Ainda me lembro da porta da frente de grossa madeira castanha entreaberta, realçando das paredes de um azul forte, onde os pais dela gritavam comigo, empurrando a miúda para trás deles, que teimava em se mostrar. Eu estava com outras miúdas. Tínhamos ido dar a notícia da nossa passagem! Fiquei chocada e confusa com tal atitude. Que eu tinha no pai dela um inimigo, já eu me apercebera há muito, mas o que me incomodava mais era a reacção da mãe, habitualmente mais calma. A porta fechou-se finalmente com um estrondo. Voltámos as costas e saímos em silêncio. Aquela casa fechara-se para mim! Aguentei a guerra até ao momento em que os pais se lembraram de ir falar com a professora, sempre com o meu nome erguido no punho como uma espada. O ambiente só acalmou, quando a professora explicou aos indignados pais, e mostrou, que a nota não se devera ao artefacto manual apresentado pela filha, mas à própria prova escrita onde ela, ingloriamente, havia resvalado. Foi então que a paz regressou, pouco a pouco, ao bairro…

Fátima Nascimento


publicado por fatimanascimento às 15:50
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