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Quinta-feira, 26 de Abril de 2007
Lembro-me vagamente daquele dia... tinha então dez anos. O dia acordara calmo, ameno e ensolarado, e, como sempre, preparei-me para ir para a escola. Era mais um dia de Primavera, naquela pequena e pacata vila, cuja fraca movimentação, coincidia com a entrada nas escolas e no emprego. O velho castelo, ainda adormecido, sobranceiro à cidade, como que protegendo-a contra qualquer investida perigosa, aproveitava os últimos momentos de descanso daquela manhã. A campainha tocou anunciando a hora da entrada, e todos em fila indiana, nos deslocámos escada acima em busca da nossa sala de aula. Os trabalhos recomeçaram nesse dia como habitualmente, com a mesma agitação do começo da aula, a que se seguia o silêncio respeitoso imposto pela professora. A meio da manhã, a directora da escola interrompeu as nossas actividades, pedindo desculpa à colega e pedindo-lhe se poderia sair da sala por uns instantes. Isto deixou-nos um pouco perplexos, inseguros e agitados uma vez que no recreio já correra a notícia de uma golpe de estado. Virámo-nos umas para as outras comentando o que acontecera e tentando ansiosamente descortinar o motivo daquela interrupção brusca. Passados breves momentos, entraram as duas confirmando as notícias do recreio. Tinham anunciado na rádio um golpe de estado mas nada se sabia ao certo. Disseram-nos que as aulas terminariam nesse momento e recomendaram-nos que fôssemos directamente para casa, o mais rapidamente possível, evitando olhar para o sol(falava-se também de um eclipse nesse dia ou algo parecido). As professoras não podiam garantir a segurança dos alunos na escola, daí a decisão. Entre outros acontecimentos temia-se a tomada da escola. As minhas vizinhas ficaram na escola esperando pela boleia do pai de uma delas. Eu, a quem a ideia de permanecer na escola sem aulas me aborrecia imenso, e como não tinha ordem dos meus pais para lá ficar, resolvi ir para casa. Lembro-me de ter ido sozinha, deixando atrás de mim um recreio cheio de raparigas receosas, criticando a minha atitude pouco sensata.
Desci a colina das escolas e caminhei pelas ruas quase desertas que desembocavam na avenida da vila. Naquele mês estavam as árvores floridas com aquelas flores em cacho brancas, semelhantes a árvores natalícias vestidas de branco, e os impiedosos raios solares trespassando a densa folhagem das velhas e volumosas árvores da avenida. No meu solitário trajecto, cruzei-me com algumas pessoas apressadas que me dirigiam um olhar vacilante entre o medo e a perplexidade, algumas, devoradas pela preocupação, sopravam-me à passagem que me apressasse a ir para casa. Lembro-me de encarar com dois tanques das forças armadas que seguiam em fila indiana pela avenida e gritavam alegremente "vitória" e "MFA" às paredes silenciosas, à natureza indiferente e... a mim, como se de um recado se tratasse. Lancei-lhes um olhar admirado. Tinha dado de caras com o que quer que fosse que estivesse a acontecer! Segui o meu caminho e cruzei-me com um homem ainda novo que corria na minha direcção que me perguntou arfando a sua indignação enquanto me perguntava o que é que eu fazia ali, quando deveria estar na escola. Perguntou-me onde morava, boa ainda era longe. Ele indicou-me o melhor caminho a seguir sem problemas. Fez os seus cálculos, já passara por "eles", por isso seria difícil eu encontrá-los pelo caminho. Eu prepliquei que já passara por "eles" sem problema. Ele refugiou-se uma vez mais nos seus cálculos, eram "outros"... então, achando que não fariam mal a uma criança, avisou-me que fosse para casa o mais rapidamente possível e que não confiasse em ninguém que encontrasse pelo caminho. Não se sabia muito bem o que estava a contecer no país, poderia ser uma coisa boa ou má, mas que até se ter mais notícias, todo o cuidado seria pouco. Ele não me poderia levar de volta à escola, pois não sabia se estaria a ser procurado... e que tinha de se ir embora antes que "eles" voltassem... Perguntou-me o que fazia o meu pai, dizendo-me que talvez ele até corresse mais perigo do que eu, dada a natureza da sua profissão. Não sei quem é este homem ou quem era... agradeço-lhe a dimensão humana que transpirava dele e que o fez preocupar-se comigo... nunca mais o vi. Foi-se embora lançando olhares receosos à sua volta. Mais tarde, o meu pai perguntou-me por entre os muitos rostos que nos rodeavam se eu reconhecia o senhor que me ajudou... respondi que não. Cheguei a casa subindo e atravessando ruas solitárias inundadas de luz, que escoavam o calor pelas ruas da colina. Os cafés e outras casas comerciais haviam encerrado as suas portas, escondendo um mundo atrás delas. Só já perto de minha casa, a meio da colina, permanecia um café aberto, aonde corriam vizinhos assustados a trocar breves palavras para logo se refugiarem na segurança das suas casas. Cheguei sem problemas a casa e, passado pouco tempo, a preocupação diluiu-se na segurança das minhas brincadeiras infantis...


publicado por fatimanascimento às 03:28
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