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Domingo, 18 de Janeiro de 2009
Era cinzento. Todo ele reflectia os vários tons de cinzento. Tinha umas riscas no pêlo macio e espesso que o cobria e lhe dava um ar de tigre minúsculo. Não era feliz. Arrastava-se pelo pátio da casa dos velhos donos, roçando-se pelas pernas das pessoas, mendigando afecto, de onde era, invariavelmente, enxotado. Comia os magros restos e passeava-se em aventuras que o faziam desaparecer como que por magia, tentando, daquela forma, ultrapassar a rejeição a que era sujeito. Os arredores da casa não lhe interessavam. Demasiadas pessoas por ali. E isso era sinal de atitudes impacientes, vaidosas e desdenhosas. Só o frio o levava a procurar locais que emanavam calor físico, traduzido num amontoado de carvão incandescente, acomodado numa bacia de metal, pouco funda, encaixada num suporte de madeira hexagonal, onde os humanos descansavam o calçado grosso.
Nessa tarde, escura e fria de Inverno, o animal observou a velha dona nos habituais preparativos de aquecimento. O vento forte, carregado de gelo, eriçava o seu bonito pêlo. Enrolado sobre si próprio, o animal espreitava pela pálpebra entreaberta, sempre que um ruído o despertava do seu torpor, para logo a fechar e esconder o focinho no corpo felpudo. Desta vez, não recuperou a acostumada posição. Da bacia baixa, no carvão negro, bailavam suaves chamas, ao ritmo do vento frio, vestidas de tecidos leves, e de suaves cores alegres que convidavam ao aconchego. A bacia estremeceu violentamente nas mãos trémulas da dona, até sossegar, confortavelmente, no seu habitual poiso. Estava na hora de se aproximar. Começou a mover-se silenciosamente, sempre com o olhar fixo no convidativo alvo incandescente. As grossas pantufas cinzentas, de onde surgiam as imutáveis meias negras, coladas às magras pernas arqueadas, já estavam paradas sobre o estrado. Tinha chegado a sua vez. Moveu-se imperceptivelmente, contornando todos os obstáculos que o separavam daquela alegre e suave dança hipnótica. Subiu o estrado da braseira e acomodou o corpo ao formato dele. Mais calçado se lhe juntou atraído pela fumegante dança. Desalojado, por várias vezes, da sua posição, o animal encontrou refúgio em cima dos pés de uma garota. Servia-lhe de cobertor. Apesar do incómodo, era melhor do que o pátio frio. Pela porta entreaberta, o invejoso vento espreitava as chamas, afastando violentamente as fitas, que batiam ruidosamente contra a azul porta de madeira maciça. A escuridão filtrava-se pela janela, inundando a pequena cozinha. Só o fogão a lenha, de onde se desprendia um agradável cheiro a frango dourado em azeite e cebola, e a pequena bacia onde pequenas labaredas coloridas, semelhantes a pequenas fadas de brilhantes e minúsculas asas transparentes, bailavam docemente, exalavam calor e luz, projectando nas paredes longas figuras humanas.
Subitamente, um cheiro a queimado pareceu invadir as narinas dos humanos. A porta do fogão a lenha foi aberta, para ver se alguma rodilha tinha ficado por lá esquecida. O calçado, que rivalizava em espaço com o animal, recuou subitamente. As cabeças baixaram-se examinando cuidadosamente as solas. Nada a registar. De onde viria aquele cheiro? À volta da braseira nada mostrava indícios de uma possível combustão. A velhota debruçou-se mais sobre o manso fogo, avaliando os possíveis estragos no seu precioso estrado. Nada. Um grito rasgou o silêncio hipnótico das chamas. O animal! O seu corpo bem acondicionado à forma do estrado, tinha resvalado um pouco dos pés da gaiata, e o seu precioso pêlo, havia sido aprisionado nas pequenas e traiçoeiras chamas. Um violento pontapé atirou o gato pelos ares, afastando-o daquele voraz perigo sub-reptício. O animal, aturdido, caiu sobre as suas macias patas, calculando o espaço que o separavam das saudosas chamas atrevidas. Passado o perigo, e refeitos todos do susto, lambido o pêlo chamuscado, reagrupado o calçado à volta do estrado, o gato friorento esticou-se para a frente e buscou uma posição confortável, tão próxima do agradável lume quanto possível. Passados alguns instantes, lá estava ele de corpo adaptado ao desenho do estrado, recuperando o confortável sono, ao qual havia sido tão penosamente arrancado.


publicado por fatimanascimento às 03:40
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