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Terça-feira, 03 de Abril de 2007
Acabada a escola, a perspectiva das férias, o tempo livre que elas proporcionavam mexiam constantemente com a minha imaginação e criavam uma grande expectativa. O espaço que dispunha e a natureza deste apelavam às férias! Mas só o mês de Setembro, para mim, era sinónimo de férias. Estas eram passadas na praia... quase sempre na última quinzena do mês de setembro. Como terminava as aulas na meio de Junho, passava os meses de Julho e Agosto numa expectativa interminável. O resto de mês de Junho era fácil, passava depressa, na companhia dos amigos do bairro, mas, quando estes partiam para férias, aquele bairro transformava num deserto escaldante. Percorria aquelas ruas escaldantes, olhando as casas adormecidas sob o sol impiedoso, à procura de alguém da minha idade, com quem pudesse partilhar os meus dias solitários. Nessas tardes silenciadas por um sol despótico, nem os animais mais afoitos se viam ou ouviam. Grande parte das vezes, após uma busca infrutífera, recolhia à fresca penumbra da minha casa, onde, à falta da televisão cujo horário ainda não abrangia as tardes semanais, imaginava brincadeiras com os parcos brinquedos que tinha e lia alguns livros, que pedira emprestados à recheada biblioteca infantil e juvenil da minha amiga de infância que vivia numa vivenda perto da minha casa. Quando me cansava, eu, que sempre fui muito madrugadora, toda a minha vida, e para quem as manhãs sempre foram um abrigo fresco, dedicava-as a observar a natureza nas suas mais diversas componentes (animal, vegetal...) e a fazer explorações, aventurando-me pelo carreiro das cobras, o olival ou simplesmente brincando em cima das oliveiras. Mas, nem sempre as tardes eram assim tão bem aproveitadas e lembro-me de algumas tão silenciosas e vazias que quase me levaram ao desespero! Eram as tardes tórridas, quando o sol despótico me impedia de sair em busca de companhia, quando a concentração me fugia para parte incerta e parecia não haver nada para fazer... então a solidão, a minha companheira habitual, desde pequena, encavalitava-se e passeava-se nos meus ombros de um lado para o outro da casa. Quando contei a uma amiga de infância, ela, muito generosamente, ofereceu-me os brinquedos dela uma vez que, durante as férias, ela não os utilizava. Fiquei grata e admirada ao mesmo tempo, mas hesitei e contei-lhe as minhas reservas. Ela recusou-as e contou-me onde deixava a chave da garagem, pedindo que não contasse nada a ninguém. Continuei com as minhas reservas... que nada, que me deixasse disso... Sacudi a cabela decidida a esquecer o assunto. A ideia de mexer nos seus brinquedos, durante a sua ausência não me parecia muito correcta, mesmo com a autorização desta... Num daqueles dias de pesada solidão, eu lembrei-me das palavras da minha amiga... Seria verdade? Poderia mesmo acreditar nas suas palavras? Depois de muita luta comigo própria, decidi-me, mas sempre com um sentimento de reprovação e medo dentro de mim... Saí de casa com a ideia de ir buscar os brinquedos e, depois de brincar com eles, colocá-los no sítio. Encontrei facilmente a chave onde a minha amiga me dissera, abri o portão e retirei de lá os brinquedos, trancando novamente o portão da garagem. Regressava com balde mão direita, quando, antes de chegar ao portão da rua, encarei com a mãe da minha amiga! Eu não percebi nada! Ela afinal estava em casa e não me dissera nada. E eu que desesperava por companhia numa casa vazia... Mandaram-me colocar o balde dos brinquedos no sítio e, depois de um interrogatório, pediram que desapacesse. Eu tremia toda sem compreender nada do que se passava! Obedeci imediatamente, muito envergonhada! Mesmo a minha amiga negara a conversa que antes havíamos tido! Não se lembrava de nada! Isto deu falatório para uns poucos de dias: eu havia sido apanhada a roubar os brinquedos da minha amiga! Conteu tudo à minha mãe que me confortou gritando que era bem feito por ter acreditado nas palavras da minha amiga, e que só com autorização da mãe dela poderia ter tomado tal atitude. Eu engoli em seco, cheia de remorsos por ter sido tão ingénua! Sentia-me só, injustiçada e abandonada. Até os outros, depois das suas férias, pareciam olhar-me de maneira diferente, quando tomaram conhecimento do que acontecera. Também a minha amiga me olhava de forma diferente! Eu tentara roubar-lhe os brinquedos, dizia o olhar acusador! A situação prolongou-se até que uma amiga comum de infância, ouvindo o meu relato e o dela, descobriu o que se passara realmente, confrontou-a, contou à mãe e... tudo se resolveu, com grande alívio meu e, curiosamente, dos outros meus amigos, que não cessavam de me repetir que fora por pouco. A mãe da minha amiga, dona dos brinquedos, contudo continuava a duvidar de mim. Mas que me importava a mim? Eu tinha aminha consciência tranquila... e os outros que acreditavam em mim!

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publicado por fatimanascimento às 17:03
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