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Terça-feira, 10 de Abril de 2007
Como passava muito tempo em casa sozinha, eu construí um mundo imaginário no qual eu me abrigava frequentemente. Esse era o mundo onde os meus medos desapareciam como por magia. Nele não havia maldade só bem. Era um mundo tão diferente do quotidiano cheio de palavras gritadas às paredes da casa, portas atiradas violentamente contra o trinco, e silêncios vazios cheios de uma muda violência latente. A solidão, por vezes, era sinónimo da tão ansiada calma. Como não havia um bom casamento, os progenitores tentavam limar as arestas de ambos os lados, sem sucesso. Isto embrenhava-os em tão longas e calorosas discussões, que eu não sabia muito bem quando deveria sair do quarto para ir à casa de banho. Esperava geralmente pelas tréguas para me escapulir às palavras que me sobrevoavam a cabeça à laia de balas cruzadas. Antes, porém, esperava atrás da porta o tempo suficiente para tentar perceber o tempo daquelas tréguas traiçoeiras, e, quando as portas eram arrancadas aos trincos, soltando as vozes encolerizadas como animais selvagens, eu percebia que o meu instinto havia ditado correctamente o tempo de espera. Nunca sabia ao certo quando seria ou não apanhada no meio da batalha. Estas discussões gastavam-lhes as energias e o tempo, pelo que a impaciência governava a casa. Eu tentava, a todo o custo, passar despercebida, tanto a um como a outro, ou seria apanhada no meio do fogo cruzado. E ainda sobrava muito para mim!
A minha relação com a escola, era de amor e ... de ódio. Tanto tinha desempenhos bons como outros deveras maus. Acho que foi sempre assim! A minha falta de concentração balançava entre esse mundo imaginário ou os problemas dos progenitores. Às vezes o medo era tão desmesurado que parecia não caber dentro de mim e sair por cada poro da pele. Não sei se era visível a olho nu ou se estava tão bem guardado que só com um microscópio se encontrava. De facto, quando o ambiente na sala de aula era favorável, assim como em casa, eu era uma garota feliz; quando o contrário se dava, eu queria era desaparecer... E foi assim que, um dia, eu que esperava numa longa lista por uma operação às amígdalas, e como estava farta da escola, resolvi antecipar essa operação; despedi-me da professora que me desejou um rápido restabelecimento. Naquele mundo fictício, no qual eu me refugiava, tudo parecia possível e não dava muita atenção ao assunto. Quando a minha mãe me chamou no dia seguinte, eu disse que não tinha escola. Mas, por azar ou sorte, o meu vizinho resolveu ir a minha casa perguntar se eu não ia. A minha mãe, ao responder, viu uma das filhas da minha vizinha que era minha colega de sala. A minha mãe fez-me levantar e acompanhou-me à escola. Ficou a saber de tudo enquanto me apertava violentamente a mão e me lançava olhares encolerizados de vergonha. Quando ela saiu, eu sentei-me, envergonhada, na minha carteira e... fui o alvo da cólera da professora, e o centro das atenções das minhas colegas. Só a minha colega de carteira me parecia compreender, embora não totalmente! Mais uma vez me sentia desamparada... e desta vez, fui a vítima do meu próprio imbróglio!


publicado por fatimanascimento às 02:34
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