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Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2007
O meu pai costuma contar histórias da sua adolescência e, muitas delas, relacionadas com o seu pai, por quem ele teve sempre uma forte admiração. Os tempos eram muito difíceis e eles viam-se obrigados a deixar as suas terras e a migrar até à ceifa alentejana, para ganharem mais algum dinheiro. O caminho era longo e feito a pé, em grupos grandes ou pequenos grupos familiares. Foi numa dessas viagens que contavam no itinerário terras como Envendos e Portalegre, que aconteceu a história que vou contar. Da passagem pelos Envendos, ficou a história da troca do presunto pelo toucinho. As pessoas, provavelmente cansadas de comer o presunto que os acompanhava na viagem, trocavam-no nos Envendos por toucinho, com o que nem todas as pessoas do grupo concordavam, embora respeitassem a decisão dos conterrâneos... Em Portalegre, numa dessas expedições ao Alentejo, o meu avô e o meu pai entraram numa tabernazita para comerem algo que fugisse ao farnel constituído por pão seco e presunto empurrados com água e algum vinho por eles transportados. Chegados a Portalegre, costumavam abancar numa tabernazita, à beira da estrada que entra no coração daquela cidade, onde podiam desfrutar de uma comida quante. Ora, qual não foi a angústia do meu avô, depois da refeição, ao verificar que tinha perdido a carteira ou a tinha deixado em casa... o taberneiro, com pena deles, não chamou a guarda, e, em vez disso, deixou-os ir, comprometendo-se o meu avô a pagar no regresso. Claro que o dono do estabelecimento nunca pensou em recuperar o dinheiro daquela refeição! Escusado será dizer que após a ceifa, a primeira preocupação do meu avô foi, assim que entrou em Portalegre, procurar a taberna e pagar a dívida pendente, perante a incredulidade do dono. Volvidos muitos anos, estando eu colocada nessa cidade, levei uma ou duas vezes o meu pai, já entradote, comigo. Ao deparar com a taberna, reconheceu-a e resolveu entrar para ver como estava e quem estava. Como homem sossegado que é, entrou, olhou à sua volta e esperou a sua vez. Enquanto esperava pacientemente, escutou uma história que depressa reconheceu como sendo a sua. Ao escutar o tom de admiração na voz do taberneiro, também ele idoso, o meu pai identificou-se, acrescentando mais alguns detalhes à história. O narrador era o filho do taberneiro que escutara a história da boca do seu pai e que já a contara inúmeras vezes aos seus clientes, e fazía-o, mais uma vez, naquele momento. Os dois homens entreolharam-se e entre eles desprendia-se uma profunda empatia e emoção. Escusado será dizer que o meu pai bebeu e pagou a custo, pois o taberneiro não queria aceitar o dinheiro. Engraçado, o meu avô já falecido ainda se encontrava vivo naquela história, contada vezes sem conta... de facto, os nossos actos imortalizam-nos e, enquanto perdurar a memória dos homens, alguns deles nunca morrerão, só o nome ligado a eles !


publicado por fatimanascimento às 14:40
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