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Domingo, 13 de Julho de 2008
Encontrei, um dia destes, um amigo meu de infância. Foi no hall de entrada de um centro comercial. Ele olhava, com cobiça, um daqueles bolos caseiros que uma loja minúscula vende, ao fundo do hall. Reconheci-o imediatamente, apesar dos cabelos brancos. Tudo era igual nele. Os gestos, a timidez, o olhar franco. É da minha idade, separam-nos apenas dois dias do mês de Fevereiro – ele faz anos a 11 e eu a 13.
Morávamos os dois em prédios contíguos, em rés-do-chão idênticos, no mesmo largo, junto da mesma capela. O largo era, nas manhãs e tardes quentes, o nosso campo de futebol, onde, vermelhos do esforçado calor e do cansaço, tentávamos chegar à baliza vizinha, sempre dispostos a correr para a nossa, quando o ataque da equipa adversária se desenhava. Os nossos momentos de alegria, ao conseguir o ambicionado golo, a tristeza ao sofrer outro. A velha pequena casa, do lado oposto ao meu prédio, cujo portão se abria, para deixar passar a velha dona irritada, sempre que o remate, atingia o alto e largo portão. Também o largo carreiro, que se estendia preguiçosamente ao lado do meu prédio, escavado pela chuva em inúmeras, secas e largas poças, serviam, conjuntamente com as pequenas, de campo ideal para o jogo do berlinde. Jogámos, muitas vezes lá, afastando-nos para os lados, sempre que um esporádico, lento e destemido carro, passava balançando perigosamente nas suas quatro rodas, deixando o jogo intacto, que recomeçávamos ansiosamente. Ganhei-lhes muitos berlindes, em esporádicos momentos de sorte, e perdi-os também. O olival, ao nosso lado, adormecido ao suave calor e embalado pelo canto suave dos pássaros, estendia-se preguiçosamente no seu tapete verde, tingido das mais variadas e alegres cores. Era nele que fazíamos as nossas incursões, sempre que nos cansávamos de percorrer o mesmo espaço e precisávamos de encontrar outros desafios. Procurávamos nele os tesouros escondidos, do velho mosteiro franciscano, enfrentávamos os mais temíveis adversários… e acabávamos, inexoravelmente, nas mãos das nossas mães, com as orelhas puxadas até ao limite… pagando, assim, a aflição de muitos minutos de chamada infrutífera, quando, no auge da nossa imaginação, nos encontrávamos no momento mais emocionante da nossa aventura, ignorando tudo o que se passava à nossa volta. Acordávamos, quando, um de nós, mais ligado à terra, dava conta das horas ou de uma voz a gritar por um de nós…
Olhámo-nos, sorrindo ao passado, que nos unia por laços muito fortes.


publicado por fatimanascimento às 13:33
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