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Quinta-feira, 06 de Novembro de 2008
Numa terna manhã de Primavera, em que os raios davam aquela aparência de floresta mágica ao olival, devida à intensa luz oblíqua que abraçava as ervas tenras, travada só pela escura terra húmida, eu passava mesmo à beira dele, quando ouvi um choro quase imperceptível de um animal. Parei à escuta. O som vinha dali perto. Entrei com cuidado no olival, e comecei a afastar as ervas, na tentativa de encontrar o autor daquele pranto. Fartei-me de dar voltas, e mais voltas sem nunca conseguir localizá-lo. Não fazia a menor ideia do que poderia encontrar. O pobre animal voltou a manifestar-se, o que encurtou a minha área de busca. Afastei mais umas ervas, e, junto do tronco oco de uma velha oliveira, escavado pelo tempo, estava um corpo pequenino, coberto de espinhos, com um focinho afilado, no cimo do qual sobressaíam dois lindos olhos. Fiquei encantada com o achado. Olhei em volta, à procura dos progenitores. Esperei, junto do pequenito, que os pais regressassem da sua volta. Nada. Já a manhã ia alta, quando dei pela espera terminada. Olhei para o pequenito, sem saber o que fazer. Não me apetecia deixá-lo, mas não tinha a certeza de que levá-lo comigo, seria a melhor solução. Fiquei parada, olhando-o, indecisa. Não havia dúvida de que já me afeiçoara ao animalzinho. Ele era o meu pequenino. Tomei uma decisão. Iria deixá-lo e voltaria mais logo, se os pais, até lá, não tivessem chegado, levá-lo-ia comigo para casa. Durante a tarde, desloquei-me, por várias vezes, ao local, para me certificar de que o bebé ouriço estava bem, sempre com a preocupação de olhar em volta para ver se encontrava algum dos pais, nas imediações. Nada. Comecei a ficar frustrada. Teria sido o animal abandonado? Não era muito provável, mas acontecia… ainda me lembrava do lindo coelho bebé, cuja mãe se recusara a alimentá-lo. Morrera seco. Ainda se lembrava do choque que sofrera, quando o encontrara morto. Teria acontecido algo semelhante? Ela observou o pequenito. Ele não apresentava sinais de abandono, estava gordinho. Cada vez mais confusa, eu não sabia explicar aquela ausência e muito menos sabia o que fazer. Regressei a casa. Chegado o final da tarde, voltei lá. A situação mantinha-se. Peguei no pequenito, levei-o para casa e transformei uma caixa de sapatos numa cama, onde coloquei um tecido grosso e escuro, que me pareceu quentinho. Coloquei-o dentro dela, aconchegando-o ao tecido macio. Pequei num minúsculo biberão de bonecas, com uma ponta fina e estreita de plástico e, muito a medo, coloquei no bico mais pequeno do fogão, um púcaro com leite a aquecer. Quando me pareceu morno, rodei o botão para desligar o gás e coloquei o biberão dentro dele. Coloquei-lhe a tampa e debrucei-me sobre o animal, tentando introduzir a ponta afilada na sua boca pequenina. O animal recusou o contacto com aquela tetina rija, mas como a fome devia apertar o seu estômago, ele lá fez um esforço. Era maior a quantidade de líquido que escorria da sua boca do que o que se aproveitava. Eu lá ia, com paciência, enxugando, com um farrapo branco, que a minha mãe cortara de um lençol velho, a sua boquita, evitando que molhasse a cama. Passado um bocado, ele estava a dormir. Olhei-o com ternura. Chegada a casa, a minha mãe pareceu gostar do animal, e não colocou obstáculos. Tudo correu bem, durante uns dias. As minhas vizinhas vieram conhecê-lo. Até que uma manhã, a minha mãe acordou mal disposta, o que acontecia muitas vezes. Recusou-se a ajudar-me, dizendo que o animal já começava a deitar cheiro à cozinha. A caixa de sapatos encontrava-se em cima de um dos dois bancos baixos, que não tinham uso, arrumados atrás da porta. Eu que me desenrascasse, gritou-me do tanque onde lavava a roupa, situado em cima de uma plataforma de cimento liso, à esquerda, à saída da porta. Eu, já habituada à ajuda, sobretudo, no fogão, hesitava em voltar a mexer-lhe. A voz ácida da minha mãe ameaçava-me com os perigos dele, quando eu já desesperada com o choro do animal, tentava acender o bico mais pequeno. A voz ácida sugeriu que lhe desse o leite frio. Mas retirara-o do frigorífico, protestei. Não queria mais mexidas no fogão. Fiquei desesperada, sem saber o que fazer. Tentei aquecer o leite na mão quente, enquanto o animal desesperava. Quando me pareceu melhor, levei o bico do biberão com medo à sua boquinha. O animal rejeitou. Informei a minha mãe, que se manteve inflexível. Dei-lhe só o indispensável para lhe matar a fome. O ouriço bebé não aguentou e morreu, passado um tempo. Foi um grande choque e um longo luto, acompanhado de um forte sentimento de culpa. E tudo piorou quando, passados uns dias, eu, no mesmo carreiro, ouvi um lamento igual àquele que havia escutado, uns dias antes. Só que este era mais nítido. Afastei as ervas, e não precisei de procurar durante muito tempo. Uma imensa bola de espinhos, desesperava, enquanto dava voltas, procurando um ser pequeno, parecido consigo, que lhe era muito querido. Fiquei em estado de choque. Encostei-me à velha oliveira. A aflição e o desespero do animal adulto eram notórios. Aprendi, da forma mais dura, que nunca se deve pegar num animal, e levá-lo para casa. Mesmo que as nossas intenções sejam as melhores! Mesmo que eles se encontrem sozinhos, por algumas horas, ou mais, os pais voltam sempre para eles!


publicado por fatimanascimento às 09:11
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