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Sábado, 04 de Agosto de 2007
Ter uma filha aos 39 anos foi, para mim, uma bênção inexplicável, em todos os sentidos. Veio numa fase difícil da minha vida, a separação e consequente divórcio, mas trouxe-nos a esperança numa vida nova. Desde que nasceu que ela se tornou o sol do lar, e todos nós, quais planetas, giramos todos um pouco à sua volta. Fez os irmãos crescer, (a irmã mais velha, desde que a mais nova nasceu, deixou de brincar com bonecas) e deu mais estabilidade emocional ao irmão. Para ela, ter dois irmãos mais velhos, trouxe-lhe também os seus benefícios, uma vez que começou a falar e a andar muito cedo, imitando os irmãos e tentando acompanhá-los o mais possível. Depois, a diferença de idades, tem oito anos de diferença da irmã do meio e onze do mais velho, fez com que encontrasse neles o apoio emocional tão necessário aquando das minhas prolongadas ausências por motivos de trabalho. Com a separação, perdi a possibilidade de trabalhar junto de casa e acabei por me deslocar, para cerca de duzentos quilómetros, onde me encontrava efectiva. Chegava na Sexta-feira à noite e partia no Domingo à noite. Lembro-me da alegria sempre que eu entrava em casa dos meus pais, para os levar para nossa casa, durante aquelas horas. Lembro-me da luta que foi para a tentar levar comigo, mas o preço do infantário acabou imperiosamente por ditar as cruéis leis da separação. Os irmãos também ficaram, claro. Pelo menos, durante a minha ausência, ela tinha assim grande parte do seu agregado familiar junto dela, ao fim da tarde. E sempre a protegeram, na medida das suas possibilidades. Foi o ano em que ela começou a dar os primeiros passos. Lembro-me da euforia dos irmãos, que, ao telefone, me contavam os prodígios que ela ia conseguindo fazer, na sua tenra idade. É claro que não aguentei, e tive um esgotamento. A ansiedade, a preocupação, a separação, as viagens, o trabalho... foram uma montanha demasiado difícil de transpor. Depois, a vida serenou, um pouco, com a aproximação de casa e a mudança do local de trabalho, para uma cidade mais próxima, ainda que longe. Foi o ano dos planos de mudança de vida, mas meu filho não se adaptou e tivemos de regressar. Novo concurso. Já com o trabalho quarenta e cinco minutos de casa, a uma velocidade média de oitenta quilómetros, e mesmo neste último ano, em que estive mais perto (mas, infelizmente, não melhor) tínhamos alguns dias da semana em que nos tínhamos de levantar mais cedo e, quando o tempo escasseava, eu pedia-lhe que se vestisse, enquanto lhe preparava a papa matinal. Qual não era o meu espanto, quando, passados alguns minutos a encontrava sentada na cama, toda vestida, lutando fortemente contra o sono, do esforço que fazia por conseguir engolir a papa, quando conseguia... Nesses dias, era a primeira a chegar ao infantário, onde esperava cerca de duas horas pelos outros meninos que, invariavelmente, por volta das nove horas.
De todos os meus filhos é a que mais se parece comigo, quando tinha a idade dela. Os cabelos castanhos claros, os olhos castanhos escuros, com o mesmo círculo de um azul acinzentado à volta da íris, o rosto largo e um corpinho roliço. Desde muito cedo que aprendeu a ser autónoma, e, ainda hoje, há muitos aspectos da vida quotidiana que ela domina largamente. O vocabulário alargado, recheado de palavras abstractas que ela aplica com muita lucidez nas suas conversas, as pequenas responsabilidade que assumiu desde cedo, a sua dádiva emocional aos entes queridos, fizeram dela uma criança muito especial. É uma criança que não precisa de dormir muito e acorda bem disposta, após alguns minutos de sono. É uma criança que ainda agora não cessa de nos surpreender. Um dia destes, desalojou o irmão do messenger, onde já se encontrava há algumas horas, pedindo-lhe que lhe pusesse determinado jogo do miniclip, explicando-lhe onde devia ir, quando o irmão, resistindo aos seus pedidos, se justificava que não sabia, para a despachar.
- É simples, Bruno. Vais ao http://www.miniclip.pt/! - explicava-lhe ela já algo impaciente, de mãozita estendida para o ecrã do monitor.
O irmão acedeu de má vontade, pensando que ela desistiria passados poucos minutos. Mas ela cresce face às dificuldades e passados esses minutos, ainda ela estava frente ao monitor, explorando todas as possibilidades daquele jogo simples. Ele voltou, anunciando que ia brincar, e voltando, desconsolado, as costas ao computador onde a irmã, entusiasmada ainda se debatia. Foi aí que ela não resistiu, respondendo que o acompanharia. Ele voltou-se admirado para mim.
- Mãe, mãe... olha para ali! Ela está a desligar o computador. - alertou-me ele, emocionado. A partir dali, quando um dos irmãos se esquece de desligar o computador, ela faz esse trabalho. Também se parece comigo em muitos aspectos. Sempre que acontecia entrar na Valentim de Carvalho, onde ia frequentemente, ela, ao contrário dos irmãos que passavam o tempo todo à minha volta, como mosquitos à volta da luz no verão, a questionar-me sobre o momento da partida, ela dirigia-se à secção das crianças, pegava num livro e distraía-se vendo as ilustrações, e apontando todas figuras que conhecia dos desenhos animados. Também nunca foi uma criança de exigente, sempre que lhe explicava que não podia, ela, embora, por vezes, muito triste, sempre acatou as minhas decisões e explicações relativas ao não que recebera. De tudo quanto ela tem e que nós amamos muito, há sobretudo o riso espontâneo, muito alegre e solto, resultante das brincadeiras com os irmãos durante os jogos... é uma pequena gigante presença nas nossas vidas.


publicado por fatimanascimento às 23:57
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