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Quinta-feira, 26 de Abril de 2007
Lembro-me vagamente daquele dia... tinha então dez anos. O dia acordara calmo, ameno e ensolarado, e, como sempre, preparei-me para ir para a escola. Era mais um dia de Primavera, naquela pequena e pacata vila, cuja fraca movimentação, coincidia com a entrada nas escolas e no emprego. O velho castelo, ainda adormecido, sobranceiro à cidade, como que protegendo-a contra qualquer investida perigosa, aproveitava os últimos momentos de descanso daquela manhã. A campainha tocou anunciando a hora da entrada, e todos em fila indiana, nos deslocámos escada acima em busca da nossa sala de aula. Os trabalhos recomeçaram nesse dia como habitualmente, com a mesma agitação do começo da aula, a que se seguia o silêncio respeitoso imposto pela professora. A meio da manhã, a directora da escola interrompeu as nossas actividades, pedindo desculpa à colega e pedindo-lhe se poderia sair da sala por uns instantes. Isto deixou-nos um pouco perplexos, inseguros e agitados uma vez que no recreio já correra a notícia de uma golpe de estado. Virámo-nos umas para as outras comentando o que acontecera e tentando ansiosamente descortinar o motivo daquela interrupção brusca. Passados breves momentos, entraram as duas confirmando as notícias do recreio. Tinham anunciado na rádio um golpe de estado mas nada se sabia ao certo. Disseram-nos que as aulas terminariam nesse momento e recomendaram-nos que fôssemos directamente para casa, o mais rapidamente possível, evitando olhar para o sol(falava-se também de um eclipse nesse dia ou algo parecido). As professoras não podiam garantir a segurança dos alunos na escola, daí a decisão. Entre outros acontecimentos temia-se a tomada da escola. As minhas vizinhas ficaram na escola esperando pela boleia do pai de uma delas. Eu, a quem a ideia de permanecer na escola sem aulas me aborrecia imenso, e como não tinha ordem dos meus pais para lá ficar, resolvi ir para casa. Lembro-me de ter ido sozinha, deixando atrás de mim um recreio cheio de raparigas receosas, criticando a minha atitude pouco sensata.
Desci a colina das escolas e caminhei pelas ruas quase desertas que desembocavam na avenida da vila. Naquele mês estavam as árvores floridas com aquelas flores em cacho brancas, semelhantes a árvores natalícias vestidas de branco, e os impiedosos raios solares trespassando a densa folhagem das velhas e volumosas árvores da avenida. No meu solitário trajecto, cruzei-me com algumas pessoas apressadas que me dirigiam um olhar vacilante entre o medo e a perplexidade, algumas, devoradas pela preocupação, sopravam-me à passagem que me apressasse a ir para casa. Lembro-me de encarar com dois tanques das forças armadas que seguiam em fila indiana pela avenida e gritavam alegremente "vitória" e "MFA" às paredes silenciosas, à natureza indiferente e... a mim, como se de um recado se tratasse. Lancei-lhes um olhar admirado. Tinha dado de caras com o que quer que fosse que estivesse a acontecer! Segui o meu caminho e cruzei-me com um homem ainda novo que corria na minha direcção que me perguntou arfando a sua indignação enquanto me perguntava o que é que eu fazia ali, quando deveria estar na escola. Perguntou-me onde morava, boa ainda era longe. Ele indicou-me o melhor caminho a seguir sem problemas. Fez os seus cálculos, já passara por "eles", por isso seria difícil eu encontrá-los pelo caminho. Eu prepliquei que já passara por "eles" sem problema. Ele refugiou-se uma vez mais nos seus cálculos, eram "outros"... então, achando que não fariam mal a uma criança, avisou-me que fosse para casa o mais rapidamente possível e que não confiasse em ninguém que encontrasse pelo caminho. Não se sabia muito bem o que estava a contecer no país, poderia ser uma coisa boa ou má, mas que até se ter mais notícias, todo o cuidado seria pouco. Ele não me poderia levar de volta à escola, pois não sabia se estaria a ser procurado... e que tinha de se ir embora antes que "eles" voltassem... Perguntou-me o que fazia o meu pai, dizendo-me que talvez ele até corresse mais perigo do que eu, dada a natureza da sua profissão. Não sei quem é este homem ou quem era... agradeço-lhe a dimensão humana que transpirava dele e que o fez preocupar-se comigo... nunca mais o vi. Foi-se embora lançando olhares receosos à sua volta. Mais tarde, o meu pai perguntou-me por entre os muitos rostos que nos rodeavam se eu reconhecia o senhor que me ajudou... respondi que não. Cheguei a casa subindo e atravessando ruas solitárias inundadas de luz, que escoavam o calor pelas ruas da colina. Os cafés e outras casas comerciais haviam encerrado as suas portas, escondendo um mundo atrás delas. Só já perto de minha casa, a meio da colina, permanecia um café aberto, aonde corriam vizinhos assustados a trocar breves palavras para logo se refugiarem na segurança das suas casas. Cheguei sem problemas a casa e, passado pouco tempo, a preocupação diluiu-se na segurança das minhas brincadeiras infantis...


publicado por fatimanascimento às 03:28
Segunda-feira, 16 de Abril de 2007
Crescer é muito complicado... e duro! E eu que o diga, que aprendi tudo, ou quase tudo, à minha custa! Às vezes chegou mesmo a ser traumatizante! As vezes que eu tacteei à procura do caminho certo! Os medos que eu tive, os erros que cometi sem orientação prévia... e em situações tão básicas, e de que me arrependo, embora saiba que nunca as voltaria a cometer e que foi tudo imaturidade do momento. Mas aprendi e nunca mais esqueci... só por isso valeu a pena. E mais vale aprender em criança do que em adulta. Mas se as crianças forem desde sempre acompanhadas, muita situação traumatizante pode ser evitada. Não foi isso que aconteceu comigo ou com o meu amigo de infância, o "Vences"... Lembro-me tão bem do Carlos Manuel, que, tal como eu, andava sempre a ser repreendido! O Carlos era filho de pais separados e os meus andavam tão entretidos a discutir um com o outro que era um alívio para mim, quando me esqueciam. Agora penso no percurso semelhante que tivemos! Andávamos ambos perdidos, mas não éramos maus cachopos, o que parece ter passado despercebido a alguns adultos que conviviam connosco. Lembro-me dele em plena adolescência, um jovem moreno de cabelo negro liso, comprido que lhe emoldurava a face de vivos olhos castanhos, alto e elegante, cm aquele andar cambaleante tão típico dos adolescentes, com a minha insegurança e os meus medos e imaturidade... e os mesmos disparates que irritavam os adultos! Sabes quando me senti amadurecer, Carlos? Foi naquele momento em que uma amiga nossa de infância foi chamar o pai dela para ralhar contigo, porque fizeras algo, já nem me lembro o quê... naqueles momentos em que ficámos os dois sós, eu senti pena de ti, do teu gesto desamparado e incomodado... E então percebi! Tu tiveras um daqueles gestos que muitas vezes nos transcendem, e que nem sabemos explicar como aconteceram... mas que, para azar nosso, acontecem. "Porque é que fizeste fisso? Agora ela vai contar ao pai dela...", admoestei-te, ao que me respondeste aquilo que eu já sabia, que nem sabias porque fizeras isso e que estavas arrependido. Nos momentos que se seguiram à nossa troca de palavras, entreolhámo-nos profundamente, sentindo-nos bem os dois na presença um do outro. Nunca me sentira tão perto de alguém em toda a minha vida! Nunca me sentira tão bem junto de ti. Enquanto falávamos tive a nítida sensação de que o pai dela ouvira a nossa conversa da janela do quarto dele, virada para a estrada, onde nos encontrávamos, e tive a certeza quando me virei e o vi arrastando os pés na nossa direcção. Já havia sido tudo dito e ele compreendera isso, mas viu-se obrigado a dizer alguma coisa... e não foi tão duro como das outras vezes era contigo e comigo, lembras-te? Eu também me antecipei defendendo-te dizendo que já te arrependeras do que fizeras... mas eu não contava e ele falou na mesma. Foi nesse momento que algo em mim amadureceu e julgo que em ti também. Já não éramos os mesmos adolescentes de há uns momentos atrás! Amadurecêramos, e foi tudo tão depressa, tão suave, como o fruto que na véspera está ainda verde, mas que se colhe maduro no fim do dia seguinte cheio de sol... Conseguíramos os dois, querido amigo, naquele singelo momento, aquilo que os adultos sempre se esforçaram para conseguir de nós! Passado pouco tempo, morrias atropelado naquela estrada de duas vias, a que chamávamos "autoestrada"!
Amo-te, meu querido amigo, e amar-te-ei até ao fim dos meus dias!


publicado por fatimanascimento às 20:48
Segunda-feira, 16 de Abril de 2007
Já há alguns anos que vivo só com os meus filhos... e, olhando para trás, para um casamento desastroso, tenho a certeza de que foi o melhor que me aconteceu! Ele está muito melhor e eu também! Mas viver só na companhia de três crianças pode ser viciante... porque é bom! É claro que tenho uns filhos magníficos, que eu não trocaria por ninguém deste mundo! Gosto imenso deles, da maneira como são! O que mais me orgulha neles é que são boas pessoas! E são cada vez mais raras as boas pessoas neste mundo, por isso estou contente. Depois do divórcio, são eles a minha companhia e estamos muito unidos. Já passámos por muitas peripécias, boas e más, e ultrapassámo-las todas. Mas o que recordamos com mais carinho são as férias. Nunca nos aventuráramos tão longe! O rapaz e os medos dele foram ultrapassados durante essas longas viagens, embora outros haja ainda que teimem em persistir... Foram todas elas muito boas e deixaram saudades! Tantas... É esta liberdade que me faz feliz. E os meus filhos fazem parte dessa liberdade, sempre fizeram. Viver só tem, como tudo, aspectos bons e menos bons. Primeiro, nunca estamos verdadeiramente sós, se contarmos com nós próprios e há tanto para descobrir em nós! Tantos mundos interessantes dentro de nós que desconhecemos, e que o stress do dia-a-dia nos impede de descobrir! Viver só é isso mesmo... contar e acreditar em nós próprios. Ao contrário do que a sociedade nos ensina, a vida não se resume apenas ao casamento e à procriação para a continuação da linhagem, ... há outros aspectos da vida também importantes, às quais não se dão o verdadeiro valor, porque nos limitaram os horizontes com a educação. Mas esses, cabe a cada um descobrir por si quais são... pois só cada um os poderá descobrir por si.


publicado por fatimanascimento às 11:33
Sábado, 14 de Abril de 2007
Deus sempre foi essencial na minha vida... desde que me lembro. Na infância, Jesus, que tinha um rosto, era o meu preferido. Deus, que me diziam ser seu pai e nosso, sempre me surgia na memória mais com aspecto de avô. Era, portanto, com Jesus que eu me entendia. Era um pouco como um irmão mais velho. Foi na catequese que eu tive o primeiro contacto com eles, antes, eu lembro-me vagamente de rezar a uma entidade abstracta todas as noites, quando o sono permitia. Era como uma cantilena que eu memorizara e repetia, noite após noite, por vezes, com algumas lacunas que me obrigavam a voltar ao início, e repetir tudo, antes de me aconchegar entre o fino e maleável colchão e o peso dos cobertores quentes e suaves. Na catequese, o meu primeiro livro tinha umas figuras tão perfeitas e umas paisagens tão bonitas que, aliada à mensagem, me faziam sonhar... e, do que via, eu continuava mentalmente a história fazendo mover aquelas personagens... são doces folhas de memórias soltas! Ainda adolescente, pensei seriamente em seguir a vida religiosa. Pensei nas carmelitas e também nas irmãs missionárias que dedicavam a sua vida ao serviço dos outros... e o meu coração balançava indeciso! Ambas me atraíam por razões diferentes: na primeira, seduzia-me a vida simples e verdadeira que eu imginava existir num local habitado por essas irmãs; na outra, contudo, seduzia-me a ajuda aos outros e, sobretudo, a partida que simbolizava também o afastamento da sociedade escravizante em que vivemos. A liberdade de poder agir em prole do bem daqueles que necessitam, partilhando com eles sucessos e desânimos, amando-os como família que são, a grande família de Deus! Ainda hoje eu sinto em mim um apelo inexplicável... Depois, com o avanço da vida, a minha fé nunca me abandonou, embora tenha havido momentos em que me deparei com acontecimentos que a puseram duramente à prova! Devo confessar que me fizeram mal de toda a maneira e feitio. Pessoas que me deveriam proteger devido aos laços que nos uniam então, e que seriam insuspeitáveis, embora uma delas sempre tenha mostrado por palavras e actos o seu ódio por mim... mas a outra enganava mais. Era mais discreto e hipócrita! A máscara perfeita! Mas nem com o mal que me fizeram, fosse ele visível ou não, e fazem, eles vão conseguir afastar-me do caminho que me leva a Deus. Poderá haver curvas apertadas no meu caminho, poderá um dia a dor falar mais alto que a razão, poderá um dia a dor transformar-se em revolta amarga... mas nem por artes mágicas negras eles haverão de me escravizar ao mal... o desafio está lançado! Deus é grande e irá ajudar-me! Mesmo que eu me esqueça disso por momentos... ou me façam esquecer!


publicado por fatimanascimento às 13:20
Terça-feira, 10 de Abril de 2007
Num frio dia outonal, os meus avós paternos pegaram no burro da família e dirigiram-se a um terreno baldio com o fim de apanhar lenha para a lareira que era, ao mesmo tempo, fogão. Levantaram-se cedo, acenderam o lume, pousaram a grelha em cima das cinzas, e uma panela de alumínio cheia de água. Após a frugal refeição de pão de milho e café, dirigiram-se ao curral e aparelharam o burro. Estugaram o passo, protegendo as mãos do ar gélido e abrindo caminho entre o nevoeiro que bloqueava os caminhos lamacentos, incitando à marcha o indolente burro de orelhas murchas e olhar contrariado. A aldeia despertava para a manhã invernosa e, aqui e além, vozes abafadas entravam e saíam, na azáfama rotineira da madrugada. Num instante atravessaram a pequena aldeia, dirigindo-se aos campos que dormitavam debaixo do manto nevoento. À chegada, deixaram o burro a pastar ali perto, enquanto eles se entrgavam à tarefa de apanhar e partir os ramos mais compridos, que, depois, juntavam num monte, pronto a arrumá-la no alforge. Foi um trabalho contínuo, só com tempo para parar ocasionalmente, endireitar as costas, respirar mais profundamente, trocar entre eles algumas palavras... e logo, absortos, retomavam a tarefa. O sol, entretanto descobrira, primeiro timidamente deixando apenas os raios mais destemidos furar o denso manto de nevoeiro, depois, gradualmente, foi-se mostrando a sua majestosa imagem, destapando o resto da paisagem matinal. Agora, podia ver-se os campos retalhados até onde a vista alcançava. Quando o monte de lenha lhes pareceu suficiente para os dias que se avizinhavam, pararam descansando as costas e trocando algumas palavras ofegantes. Riram-se do coelho que parara subitamente, olhando atentamente para eles com as orelhas espetadas no ar, movendo nervosamente o nariz, retomando calmamente a sua marcha. Escutaram os longuínquos latidos de um cão que se perderam na imensidão da colina e acompanharam o voo de uma ave que desenhava largos círculos no céu... comentaram algo sobre o tempo e chamaram o burro. Este, contente com o tempo dedicado a abocanhar pedaços de erva fresca, respondeu prontamente. Começou, então, a tarefa de carregar os alforges, com o peso da lenha cortada... não seria demasiado peso para o burro, inquiria a minha avó desconfiada, pois conhecia as manhas do burro. Claro que não era, ele aguentaria este e outro tanto, discordava o meu avô! Não seria melhor voltar novamente e carregar o resto da lenha?continuava a miha avó a quem a resposta do meu avô não convencera minimamente. Não, respondeu o meu avô impaciente para terminar o trabalho. A carga aumentou no lombo do animal que a certa altura decidiu deitar-se. Foi o caos! O meu avô praguejava enquanto empurrava os quadris do animal. A mulher puxava a corda tentando desesperadamente levantar o animal, ao mesmo tempo que o encorajava com palavras. Como não tiveram sucesso e o tempo passava sem que o animal se decidisse a levantar, o meu avô resolver deitar fogo a um monte de lenha amontoada perto do animal. O burro nem se mexeu! Continuava calmamente deitado aparentemente alheio a toda a azáfama que o rodeava. Bem, o meu avô dando-se por derrotado, resolveu seguir a sugestão da minha avó. Começou a retirar lenha do lombo do animal que, quando se viu aliviado do peso, logo se levantou prontamente, como se nada fosse com ele! Ora viste, riu-se o meu avô, tu tinhas razão! O burro concorda contigo! Ela replicou que já sabia porque já tinha acontecido uma vez com ela! De burro ele não tem nada, replicou o meu avô a quem nunca o burro pregara tal partida!


publicado por fatimanascimento às 13:46
Terça-feira, 10 de Abril de 2007
Como passava muito tempo em casa sozinha, eu construí um mundo imaginário no qual eu me abrigava frequentemente. Esse era o mundo onde os meus medos desapareciam como por magia. Nele não havia maldade só bem. Era um mundo tão diferente do quotidiano cheio de palavras gritadas às paredes da casa, portas atiradas violentamente contra o trinco, e silêncios vazios cheios de uma muda violência latente. A solidão, por vezes, era sinónimo da tão ansiada calma. Como não havia um bom casamento, os progenitores tentavam limar as arestas de ambos os lados, sem sucesso. Isto embrenhava-os em tão longas e calorosas discussões, que eu não sabia muito bem quando deveria sair do quarto para ir à casa de banho. Esperava geralmente pelas tréguas para me escapulir às palavras que me sobrevoavam a cabeça à laia de balas cruzadas. Antes, porém, esperava atrás da porta o tempo suficiente para tentar perceber o tempo daquelas tréguas traiçoeiras, e, quando as portas eram arrancadas aos trincos, soltando as vozes encolerizadas como animais selvagens, eu percebia que o meu instinto havia ditado correctamente o tempo de espera. Nunca sabia ao certo quando seria ou não apanhada no meio da batalha. Estas discussões gastavam-lhes as energias e o tempo, pelo que a impaciência governava a casa. Eu tentava, a todo o custo, passar despercebida, tanto a um como a outro, ou seria apanhada no meio do fogo cruzado. E ainda sobrava muito para mim!
A minha relação com a escola, era de amor e ... de ódio. Tanto tinha desempenhos bons como outros deveras maus. Acho que foi sempre assim! A minha falta de concentração balançava entre esse mundo imaginário ou os problemas dos progenitores. Às vezes o medo era tão desmesurado que parecia não caber dentro de mim e sair por cada poro da pele. Não sei se era visível a olho nu ou se estava tão bem guardado que só com um microscópio se encontrava. De facto, quando o ambiente na sala de aula era favorável, assim como em casa, eu era uma garota feliz; quando o contrário se dava, eu queria era desaparecer... E foi assim que, um dia, eu que esperava numa longa lista por uma operação às amígdalas, e como estava farta da escola, resolvi antecipar essa operação; despedi-me da professora que me desejou um rápido restabelecimento. Naquele mundo fictício, no qual eu me refugiava, tudo parecia possível e não dava muita atenção ao assunto. Quando a minha mãe me chamou no dia seguinte, eu disse que não tinha escola. Mas, por azar ou sorte, o meu vizinho resolveu ir a minha casa perguntar se eu não ia. A minha mãe, ao responder, viu uma das filhas da minha vizinha que era minha colega de sala. A minha mãe fez-me levantar e acompanhou-me à escola. Ficou a saber de tudo enquanto me apertava violentamente a mão e me lançava olhares encolerizados de vergonha. Quando ela saiu, eu sentei-me, envergonhada, na minha carteira e... fui o alvo da cólera da professora, e o centro das atenções das minhas colegas. Só a minha colega de carteira me parecia compreender, embora não totalmente! Mais uma vez me sentia desamparada... e desta vez, fui a vítima do meu próprio imbróglio!


publicado por fatimanascimento às 02:34
Terça-feira, 03 de Abril de 2007
Acabada a escola, a perspectiva das férias, o tempo livre que elas proporcionavam mexiam constantemente com a minha imaginação e criavam uma grande expectativa. O espaço que dispunha e a natureza deste apelavam às férias! Mas só o mês de Setembro, para mim, era sinónimo de férias. Estas eram passadas na praia... quase sempre na última quinzena do mês de setembro. Como terminava as aulas na meio de Junho, passava os meses de Julho e Agosto numa expectativa interminável. O resto de mês de Junho era fácil, passava depressa, na companhia dos amigos do bairro, mas, quando estes partiam para férias, aquele bairro transformava num deserto escaldante. Percorria aquelas ruas escaldantes, olhando as casas adormecidas sob o sol impiedoso, à procura de alguém da minha idade, com quem pudesse partilhar os meus dias solitários. Nessas tardes silenciadas por um sol despótico, nem os animais mais afoitos se viam ou ouviam. Grande parte das vezes, após uma busca infrutífera, recolhia à fresca penumbra da minha casa, onde, à falta da televisão cujo horário ainda não abrangia as tardes semanais, imaginava brincadeiras com os parcos brinquedos que tinha e lia alguns livros, que pedira emprestados à recheada biblioteca infantil e juvenil da minha amiga de infância que vivia numa vivenda perto da minha casa. Quando me cansava, eu, que sempre fui muito madrugadora, toda a minha vida, e para quem as manhãs sempre foram um abrigo fresco, dedicava-as a observar a natureza nas suas mais diversas componentes (animal, vegetal...) e a fazer explorações, aventurando-me pelo carreiro das cobras, o olival ou simplesmente brincando em cima das oliveiras. Mas, nem sempre as tardes eram assim tão bem aproveitadas e lembro-me de algumas tão silenciosas e vazias que quase me levaram ao desespero! Eram as tardes tórridas, quando o sol despótico me impedia de sair em busca de companhia, quando a concentração me fugia para parte incerta e parecia não haver nada para fazer... então a solidão, a minha companheira habitual, desde pequena, encavalitava-se e passeava-se nos meus ombros de um lado para o outro da casa. Quando contei a uma amiga de infância, ela, muito generosamente, ofereceu-me os brinquedos dela uma vez que, durante as férias, ela não os utilizava. Fiquei grata e admirada ao mesmo tempo, mas hesitei e contei-lhe as minhas reservas. Ela recusou-as e contou-me onde deixava a chave da garagem, pedindo que não contasse nada a ninguém. Continuei com as minhas reservas... que nada, que me deixasse disso... Sacudi a cabela decidida a esquecer o assunto. A ideia de mexer nos seus brinquedos, durante a sua ausência não me parecia muito correcta, mesmo com a autorização desta... Num daqueles dias de pesada solidão, eu lembrei-me das palavras da minha amiga... Seria verdade? Poderia mesmo acreditar nas suas palavras? Depois de muita luta comigo própria, decidi-me, mas sempre com um sentimento de reprovação e medo dentro de mim... Saí de casa com a ideia de ir buscar os brinquedos e, depois de brincar com eles, colocá-los no sítio. Encontrei facilmente a chave onde a minha amiga me dissera, abri o portão e retirei de lá os brinquedos, trancando novamente o portão da garagem. Regressava com balde mão direita, quando, antes de chegar ao portão da rua, encarei com a mãe da minha amiga! Eu não percebi nada! Ela afinal estava em casa e não me dissera nada. E eu que desesperava por companhia numa casa vazia... Mandaram-me colocar o balde dos brinquedos no sítio e, depois de um interrogatório, pediram que desapacesse. Eu tremia toda sem compreender nada do que se passava! Obedeci imediatamente, muito envergonhada! Mesmo a minha amiga negara a conversa que antes havíamos tido! Não se lembrava de nada! Isto deu falatório para uns poucos de dias: eu havia sido apanhada a roubar os brinquedos da minha amiga! Conteu tudo à minha mãe que me confortou gritando que era bem feito por ter acreditado nas palavras da minha amiga, e que só com autorização da mãe dela poderia ter tomado tal atitude. Eu engoli em seco, cheia de remorsos por ter sido tão ingénua! Sentia-me só, injustiçada e abandonada. Até os outros, depois das suas férias, pareciam olhar-me de maneira diferente, quando tomaram conhecimento do que acontecera. Também a minha amiga me olhava de forma diferente! Eu tentara roubar-lhe os brinquedos, dizia o olhar acusador! A situação prolongou-se até que uma amiga comum de infância, ouvindo o meu relato e o dela, descobriu o que se passara realmente, confrontou-a, contou à mãe e... tudo se resolveu, com grande alívio meu e, curiosamente, dos outros meus amigos, que não cessavam de me repetir que fora por pouco. A mãe da minha amiga, dona dos brinquedos, contudo continuava a duvidar de mim. Mas que me importava a mim? Eu tinha aminha consciência tranquila... e os outros que acreditavam em mim!

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publicado por fatimanascimento às 17:03
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