Terça-feira, 10 de Abril de 2007
Num frio dia outonal, os meus avós paternos pegaram no burro da família e dirigiram-se a um terreno baldio com o fim de apanhar lenha para a lareira que era, ao mesmo tempo, fogão. Levantaram-se cedo, acenderam o lume, pousaram a grelha em cima das cinzas, e uma panela de alumínio cheia de água. Após a frugal refeição de pão de milho e café, dirigiram-se ao curral e aparelharam o burro. Estugaram o passo, protegendo as mãos do ar gélido e abrindo caminho entre o nevoeiro que bloqueava os caminhos lamacentos, incitando à marcha o indolente burro de orelhas murchas e olhar contrariado. A aldeia despertava para a manhã invernosa e, aqui e além, vozes abafadas entravam e saíam, na azáfama rotineira da madrugada. Num instante atravessaram a pequena aldeia, dirigindo-se aos campos que dormitavam debaixo do manto nevoento. À chegada, deixaram o burro a pastar ali perto, enquanto eles se entrgavam à tarefa de apanhar e partir os ramos mais compridos, que, depois, juntavam num monte, pronto a arrumá-la no alforge. Foi um trabalho contínuo, só com tempo para parar ocasionalmente, endireitar as costas, respirar mais profundamente, trocar entre eles algumas palavras... e logo, absortos, retomavam a tarefa. O sol, entretanto descobrira, primeiro timidamente deixando apenas os raios mais destemidos furar o denso manto de nevoeiro, depois, gradualmente, foi-se mostrando a sua majestosa imagem, destapando o resto da paisagem matinal. Agora, podia ver-se os campos retalhados até onde a vista alcançava. Quando o monte de lenha lhes pareceu suficiente para os dias que se avizinhavam, pararam descansando as costas e trocando algumas palavras ofegantes. Riram-se do coelho que parara subitamente, olhando atentamente para eles com as orelhas espetadas no ar, movendo nervosamente o nariz, retomando calmamente a sua marcha. Escutaram os longuínquos latidos de um cão que se perderam na imensidão da colina e acompanharam o voo de uma ave que desenhava largos círculos no céu... comentaram algo sobre o tempo e chamaram o burro. Este, contente com o tempo dedicado a abocanhar pedaços de erva fresca, respondeu prontamente. Começou, então, a tarefa de carregar os alforges, com o peso da lenha cortada... não seria demasiado peso para o burro, inquiria a minha avó desconfiada, pois conhecia as manhas do burro. Claro que não era, ele aguentaria este e outro tanto, discordava o meu avô! Não seria melhor voltar novamente e carregar o resto da lenha?continuava a miha avó a quem a resposta do meu avô não convencera minimamente. Não, respondeu o meu avô impaciente para terminar o trabalho. A carga aumentou no lombo do animal que a certa altura decidiu deitar-se. Foi o caos! O meu avô praguejava enquanto empurrava os quadris do animal. A mulher puxava a corda tentando desesperadamente levantar o animal, ao mesmo tempo que o encorajava com palavras. Como não tiveram sucesso e o tempo passava sem que o animal se decidisse a levantar, o meu avô resolver deitar fogo a um monte de lenha amontoada perto do animal. O burro nem se mexeu! Continuava calmamente deitado aparentemente alheio a toda a azáfama que o rodeava. Bem, o meu avô dando-se por derrotado, resolveu seguir a sugestão da minha avó. Começou a retirar lenha do lombo do animal que, quando se viu aliviado do peso, logo se levantou prontamente, como se nada fosse com ele! Ora viste, riu-se o meu avô, tu tinhas razão! O burro concorda contigo! Ela replicou que já sabia porque já tinha acontecido uma vez com ela! De burro ele não tem nada, replicou o meu avô a quem nunca o burro pregara tal partida!


publicado por fatimanascimento às 13:46
Como passava muito tempo em casa sozinha, eu construí um mundo imaginário no qual eu me abrigava frequentemente. Esse era o mundo onde os meus medos desapareciam como por magia. Nele não havia maldade só bem. Era um mundo tão diferente do quotidiano cheio de palavras gritadas às paredes da casa, portas atiradas violentamente contra o trinco, e silêncios vazios cheios de uma muda violência latente. A solidão, por vezes, era sinónimo da tão ansiada calma. Como não havia um bom casamento, os progenitores tentavam limar as arestas de ambos os lados, sem sucesso. Isto embrenhava-os em tão longas e calorosas discussões, que eu não sabia muito bem quando deveria sair do quarto para ir à casa de banho. Esperava geralmente pelas tréguas para me escapulir às palavras que me sobrevoavam a cabeça à laia de balas cruzadas. Antes, porém, esperava atrás da porta o tempo suficiente para tentar perceber o tempo daquelas tréguas traiçoeiras, e, quando as portas eram arrancadas aos trincos, soltando as vozes encolerizadas como animais selvagens, eu percebia que o meu instinto havia ditado correctamente o tempo de espera. Nunca sabia ao certo quando seria ou não apanhada no meio da batalha. Estas discussões gastavam-lhes as energias e o tempo, pelo que a impaciência governava a casa. Eu tentava, a todo o custo, passar despercebida, tanto a um como a outro, ou seria apanhada no meio do fogo cruzado. E ainda sobrava muito para mim!
A minha relação com a escola, era de amor e ... de ódio. Tanto tinha desempenhos bons como outros deveras maus. Acho que foi sempre assim! A minha falta de concentração balançava entre esse mundo imaginário ou os problemas dos progenitores. Às vezes o medo era tão desmesurado que parecia não caber dentro de mim e sair por cada poro da pele. Não sei se era visível a olho nu ou se estava tão bem guardado que só com um microscópio se encontrava. De facto, quando o ambiente na sala de aula era favorável, assim como em casa, eu era uma garota feliz; quando o contrário se dava, eu queria era desaparecer... E foi assim que, um dia, eu que esperava numa longa lista por uma operação às amígdalas, e como estava farta da escola, resolvi antecipar essa operação; despedi-me da professora que me desejou um rápido restabelecimento. Naquele mundo fictício, no qual eu me refugiava, tudo parecia possível e não dava muita atenção ao assunto. Quando a minha mãe me chamou no dia seguinte, eu disse que não tinha escola. Mas, por azar ou sorte, o meu vizinho resolveu ir a minha casa perguntar se eu não ia. A minha mãe, ao responder, viu uma das filhas da minha vizinha que era minha colega de sala. A minha mãe fez-me levantar e acompanhou-me à escola. Ficou a saber de tudo enquanto me apertava violentamente a mão e me lançava olhares encolerizados de vergonha. Quando ela saiu, eu sentei-me, envergonhada, na minha carteira e... fui o alvo da cólera da professora, e o centro das atenções das minhas colegas. Só a minha colega de carteira me parecia compreender, embora não totalmente! Mais uma vez me sentia desamparada... e desta vez, fui a vítima do meu próprio imbróglio!


publicado por fatimanascimento às 02:34
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