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Domingo, 29 de Junho de 2008
As noites claras de Junho desciam serenamente sobre a terra cansada e dorida do sol escaldante, proporcionando-lhe as tréguas merecidas.
A música, saída dos altifalantes, lembrava-nos que a festa estava a começar. Daí a pouco, uns punhos fechados, batiam forte e apressadamente contra o vidro da porta da cozinha. Após o jantar, lá ia o nosso bando ao encontro daquele chamamento.
No corredor, que dava para os quintais do meu prédio, éramos presenteadas com aparecimento dos pirilampos esvoaçando na sua intrigante dança esverdeada, arrebatando-nos para um distante e iluminado mundo encantado, gerado à volta das nossas cabeças.
Divertíamo-nos a alcançá-los com as mãos, onde os fechávamos, por momentos, para contemplar aquelas pequenas maravilhas cintilando, aturdidas, nas palmas das nossas mãos. Era um momento mágico, intemporal e de fascínio colectivo. Observávamo-los como se quiséssemos desvendar o mistério da maravilhosa luz. Depois, já refeitos, os pirilampos levantavam voo das nossas palmas, de encontro à intrincada dança desenhada pelos companheiros, no ar morno da noite.
Despertávamos, então, para a música que nos chamava para o largo da capela, invadindo e contornando os adultos na nossa velocidade infantil. Sentíamos aquela festa como nossa. Não tinha segredos para nós. Sabíamos de cor a sucessão dos eventos, que preenchiam, com notável nobreza, aquelas noites e tardes excepcionais. A marcha, com os seus arcos habilmente decorados, a luz dos balões, dançando à suave brisa, as saias coloridas que adornavam as ancas, agitadas pela batida compassada da música, as vozes juvenis, soltando a letra dos santos populares, a coreografia perfeita que cruzava e descruzava corpos, em efeitos visuais perfeitos; o cortejo das fogaças, que esperávamos com impaciência e curiosidade, cada ano, e as próprias fogaças que admirávamos de perto, quando descansavam nas prateleiras do pavilhão, sempre ricamente recheadas com iguarias, acomodadas em tabuleiros rectangulares murados, lindamente decorados, com esguios arcos que se intersectavam no ar, presos aos quatro cantos dele; a procissão dos pãezinhos, na qual participei em criança, carregando um dos lindos cestos e, mais tarde, já uma jovem feita, suportando o peso do pesado andor, de um dos santos que guardam os três altares da maravilhosa capela de Sº António.
Nos espaços calmos da festa, enquanto se aguardavam os espectáculos, nós, os mais pequenos, invadíamos o palco, como guerreiros implacáveis, desenhando nele intricadas coreografias nas nossas correrias.
Por volta da meia-noite, como quase sempre nos esquecíamos das horas, lá aparecia uma mãe a chamar o seu rebento, a que se seguiam outras. A minha, como acompanhava a festa da janela da sala de estar, na conversa com as vizinhas, limitava-se a acenar o braço e, quando a minha teimosia fingia que não via, lá vinha ela pelo seu pé, torcendo a boca em sinal de contrariedade, enquanto me puxava pela mão, vencendo a resistência das minhas pernas.
À noite, as casas adormeciam, embaladas pela alegre música dos artistas convidados, que animavam os bailes até de madrugada.
Mas a festa começava muito tempo antes. Era à noite que os infatigáveis vizinhos, depois de um dia de trabalho, (alguns tiravam férias nessa altura), se reuniam para assegurarem os serviços indispensáveis àquela festa popular. Algumas semanas antes, já as vozes agudas dos martelos e dos berbequins desafiavam as calmas noites primaveris. À noitinha, grupos de jovens reuniam-se nos barracões, por baixo da casa do caseiro, para realizarem os preparativos da festa. Dos barracões, passava-se aos palcos, onde se ensaiava a marcha, insistentemente, com paragens a meio, até se conseguir a perfeição exigida. Todos estes passos eram vigiados pelos nossos extasiados olhos infantis. Este ano, levei os meus pequenos até lá, e vi, com agrado, que todas as pessoas se mantinham fiéis à festa, tanto os participantes como os organizadores. São pessoas como estas, que, pelo seu empenhamento e determinação, às vezes vencendo obstáculos duros e contornando outros, (e houve alguns na história desta festa) que mantêm as tradições vivas. Esta festa é um exemplo disso mesmo. Bem hajam, por isso!

Fátima Nascimento


publicado por fatimanascimento às 11:45
Terça-feira, 10 de Junho de 2008
A manhã, regada por um sol gelado, convidava ao passeio que tinha decidido realizar, naquele dia. Era o terceiro da minha curta estada em Paris, da semana que se seguiu ao Natal de 2006. Era o dia de visitar o Cemitério do Père Lachaise e, sendo pouco amante de cemitérios, escolhera o penúltimo dia, para o percorrer. Não deixara a visita para o último dia, não fosse estar fechado. Era um local de visita obrigatória, a minha melhor amiga fizera-me prometer que lhe traria fotos. A campa visada era a do Jim Morrison.
À entrada, consultei a planta daquele imenso cemitério, semeado de campas e jazigos bem alinhados, como flores dispostas simetricamente em canteiros primaveris.
Sempre guiada mentalmente pela planta, percorri as largas avenidas daquela aldeia silenciosa, tendo sempre o cuidado de não perder a orientação. Impossível! Olhei desesperada à minha volta, nem uma alma por ali se deslocava. Até mim, chegavam vozes afastadas de pessoas perdidas, como eu. Olhei de novo, para ver se localizava as vozes que morreram, subitamente. Ninguém. Continuava sozinha. Segundo os meus cálculos mentais, deveria estar muito perto da buscada campa. Olhei em redor. Numa das avenidas, acima de mim, caminhava uma jovem que consultava atentamente o mapa que trazia consigo. Caminhava com aquela intemporalidade que caracteriza certas pessoas, em comunhão com o mundo e o sol que inundava aquele parque silencioso. A figura frágil, esguia e elegante desapareceu, subitamente, por detrás de um dos imensos monumentos fúnebres, para voltar para trás. Desisti da ajuda. Procurei eu mesma a campa. E encontrei-a. Pequena, frágil, discreta, encoberta por um enorme jazigo, de uma família desconhecida. Poderia ter acesso a ela por dois lados, um mais estreito e outro mais largo. Fotografei-a de ambos os lados, rodeando sempre o descomunal e inoportuno jazigo. Fiquei a olhar longamente aquela campa, surpreendida, por aquele homem estar reduzido a uns míseros centímetros de terra, repleta de ramos de flores secas e de mensagens dos seus inúmeros admiradores. Ao meu lado, a curta distância, descansava a do célebre músico e compositor, Chopin. Esta, mais requintada, passava menos despercebida, bem alinhada com outras campas. Foi, então, que descobri, perto de mim, a jovem que, imperceptivelmente, poisara ali. O seu recolhimento, frente à campa do admirável compositor do século XIX, fez com que eu me deslocasse o mais levemente possível, para não a perturbar. Quando pareceu acordar do seu recolhimento voluntário, entabulei conversa com ela. Simpática, ela explicou, no seu castelhano natal, que era mexicana, estava há alguns semanas em Paris, e que regressava já dali a poucos dias. Era pianista e, a sua admiração por Chopin, levara-a, naquele dia frio, a buscar a sua campa, para ali rezar. Antes, quando a avistara pela primeira vez, ela invertera a sua marcha para visitar uma de outra personalidade do mundo da cultura, que ela também admirava. Seguira-se-lhe a de Jim Morrison, onde me encontrava. Custara-lhe conseguir esse momento de liberdade, mas arranjara-o, no único que teve livre, desde que chegara à capital francesa. Continuámos a conversar, enquanto caminhávamos em direcção à saída. Despedimo-nos. Não trocámos telefones, porque sabíamos que, ao preço a que estavam as comunicações, não telefonaríamos. Não trocámos moradas, uma vez que ela, na sua digressão, nunca passaria muito tempo na mesma terra. Nunca mais a vi. Mas ela prometeu-me que nos haveríamos de encontrar um dia, ainda que por breves momentos. Não sei o local, não sei a data, mas acreditei na misteriosa jovem mexicana. Talvez numa futura digressão pela Europa. Acredito que, naquela rapariga sensível, há um talento único. Senti isso nela. E raramente me engano!


Fátima Nascimento




publicado por fatimanascimento às 11:58
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