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Sábado, 03 de Maio de 2008
eregrinação do país – a igreja de Nossa Senhora da Lapa. Esta história vai ser contada pelas minhas palavras, ajudada pela minha memória.
(À minha mãe, pelas histórias que me contava oralmente, quando tinha paciência, e que povoaram parte da minha imaginação…)

Gradiz era uma aldeia pequena, que, com o tempo cresceu, sendo elevada a freguesia, há algum tempo atrás. Ao lado, há uma localidade irmã, a Lapa, da qual esteve separada durante muitos anos, pelos cabeços naturais e, para as populações se deslocarem, tinham de andar muitos quilómetros apanhando a estrada nacional ou atravessar os mesmos. Há alguns anos atrás, a tão desejada estrada foi aberta, ligando, definitivamente, as duas populações. Pertence a esta última a história que vou contar. Esta história, com o tempo, foi-se espalhando, tornando esta localidade mais um dos destinos de peregrinação

O frio era cortante, mas a menina parecia nem parecia senti-lo. Protegida pelo lenço áspero na cabeça, as camisolas de lã sobrepostas, no cimo das quais repousava o xaile escuro, as pernas protegidas pelos saiotes e a saia, juntamente com as meias e as botas, a pequena trabalhava cuidadosamente. No alto da lisa colina rochosa, olhou distraidamente o rebanho que, mansamente, pastava à sua frente, para lá da fogueira, que crepitava alegremente. Tudo em ordem. Em redor, não se via ninguém. Raramente se via alguém, por aquelas bandas. Só alguns caçadores se aventuravam naquelas paragens, com aquele tempo. Voltou a mergulhar a cabeça na sua querida tarefa. Tão concentrada estava, que não deu pelos passos que se aproximavam apressados. Sobressaltou-se com a voz dura e aguda que cortava os tímpanos. Saltou do grosso ramo, que lhe servia de assento, e olhou o rosto vermelho de ar frio, distorcido pela raiva.
- Com que então é assim que passas o teu tempo? – perguntou-lhe a recém chegada, no mesmo tom azedo.
A rapariguinha olhou para o chão, envergonhada. O seu coração batia apressadamente. A mulher olhou para uma das mãos da garota de onde pendia um comprido rolo de trapos coloridos. Dirigiu-se à pequena e arrancou-lhe os trapos das mãos. Olhou para eles atentamente. Os trapos artisticamente ligados uns aos outros. Calculou o tempo que terá levado a fazer. E repetiu furiosamente, virando-se para a filha:
- É assim que passas o teu tempo?
A menina, de olhos baixos, estava petrificada. E, pela primeira vez, parecia tremer, como se fosse, finalmente, o frio se apoderasse dela.
- Quer dizer que em vez de trabalhares, estás a perder tempo com estas porcarias? – tornou na mãe. - Eu já te mostro o que vou fazer com isto. – ameaçou a mãe, dirigindo-se à fogueira.
A menina, adivinhando as intenções da mãe, gritou:
-Tate, mãe. É Nossa Senhora de Lapa! – gritou a menina, aflita.
A mãe retirou às chamas a boneca que ficara com uma mancha escura numa das faces da boneca.
A mãe, ainda confusa, tentou limpar, se sucesso, o sinal deixado pelo lume. Olhou para a filha sem compreender, quando, alarmada, notou que a filha tinha numa das faces, uma réplica exacta daquela que a boneca exibia. Perplexa, a mãe começou a olhar à sua volta notando situações para as quais não tinha explicação: o gado pastava sempre no mesmo sítio e andava gordo, na fogueira ardiam chamas altas, quando nela não havia mais do que brasas e, agora, a cara da filha, para além da voz da filha que ouvia pela primeira vez.


publicado por fatimanascimento às 04:42
Terça-feira, 10 de Abril de 2007
Num frio dia outonal, os meus avós paternos pegaram no burro da família e dirigiram-se a um terreno baldio com o fim de apanhar lenha para a lareira que era, ao mesmo tempo, fogão. Levantaram-se cedo, acenderam o lume, pousaram a grelha em cima das cinzas, e uma panela de alumínio cheia de água. Após a frugal refeição de pão de milho e café, dirigiram-se ao curral e aparelharam o burro. Estugaram o passo, protegendo as mãos do ar gélido e abrindo caminho entre o nevoeiro que bloqueava os caminhos lamacentos, incitando à marcha o indolente burro de orelhas murchas e olhar contrariado. A aldeia despertava para a manhã invernosa e, aqui e além, vozes abafadas entravam e saíam, na azáfama rotineira da madrugada. Num instante atravessaram a pequena aldeia, dirigindo-se aos campos que dormitavam debaixo do manto nevoento. À chegada, deixaram o burro a pastar ali perto, enquanto eles se entrgavam à tarefa de apanhar e partir os ramos mais compridos, que, depois, juntavam num monte, pronto a arrumá-la no alforge. Foi um trabalho contínuo, só com tempo para parar ocasionalmente, endireitar as costas, respirar mais profundamente, trocar entre eles algumas palavras... e logo, absortos, retomavam a tarefa. O sol, entretanto descobrira, primeiro timidamente deixando apenas os raios mais destemidos furar o denso manto de nevoeiro, depois, gradualmente, foi-se mostrando a sua majestosa imagem, destapando o resto da paisagem matinal. Agora, podia ver-se os campos retalhados até onde a vista alcançava. Quando o monte de lenha lhes pareceu suficiente para os dias que se avizinhavam, pararam descansando as costas e trocando algumas palavras ofegantes. Riram-se do coelho que parara subitamente, olhando atentamente para eles com as orelhas espetadas no ar, movendo nervosamente o nariz, retomando calmamente a sua marcha. Escutaram os longuínquos latidos de um cão que se perderam na imensidão da colina e acompanharam o voo de uma ave que desenhava largos círculos no céu... comentaram algo sobre o tempo e chamaram o burro. Este, contente com o tempo dedicado a abocanhar pedaços de erva fresca, respondeu prontamente. Começou, então, a tarefa de carregar os alforges, com o peso da lenha cortada... não seria demasiado peso para o burro, inquiria a minha avó desconfiada, pois conhecia as manhas do burro. Claro que não era, ele aguentaria este e outro tanto, discordava o meu avô! Não seria melhor voltar novamente e carregar o resto da lenha?continuava a miha avó a quem a resposta do meu avô não convencera minimamente. Não, respondeu o meu avô impaciente para terminar o trabalho. A carga aumentou no lombo do animal que a certa altura decidiu deitar-se. Foi o caos! O meu avô praguejava enquanto empurrava os quadris do animal. A mulher puxava a corda tentando desesperadamente levantar o animal, ao mesmo tempo que o encorajava com palavras. Como não tiveram sucesso e o tempo passava sem que o animal se decidisse a levantar, o meu avô resolver deitar fogo a um monte de lenha amontoada perto do animal. O burro nem se mexeu! Continuava calmamente deitado aparentemente alheio a toda a azáfama que o rodeava. Bem, o meu avô dando-se por derrotado, resolveu seguir a sugestão da minha avó. Começou a retirar lenha do lombo do animal que, quando se viu aliviado do peso, logo se levantou prontamente, como se nada fosse com ele! Ora viste, riu-se o meu avô, tu tinhas razão! O burro concorda contigo! Ela replicou que já sabia porque já tinha acontecido uma vez com ela! De burro ele não tem nada, replicou o meu avô a quem nunca o burro pregara tal partida!


publicado por fatimanascimento às 13:46
Sábado, 27 de Janeiro de 2007
Aos meus avós da terra, Ti Ana e Ti António "Tonho" Ribeiro, sempre os meus se encherão de lágrimas saudosas e o meu coração de doces recordações ao pensar em vós. Enquanto eu existir, a vossa recordação estará sempre comigo...
É nos momentos mais nostálgicos, em que deixamos o nosso pensamento vaguear ao sabor da memória, que encontramos pedaços da nossa vida, há muito perdidos... Lembro-me particularmente da aldeia onde nasceu o meu pai e das visitas que fazíamos aos familiares que lá ficaram. Naquela colina perdida na geografia da Beira Baixa, protegida dos ventos fortes pelos pinheiros altos e volumosos, com casas de pedra aconchegadas umas às outras, dormitavam nos dias de sol e aguentavam, com bravura, a forte investida da chuva nos dias cinzentos e frios de inverno. Os dias não tinham segredos. O canto do galo acordava os passos, ainda sonolentos, aos quais se juntavam, logo a seguir, as vozes cautelosas. A casa começava então, lentamente, a acordar, bocejando e piscando os olhos inchados de sono. Pouco tempo depois, começavam os trabalhadores a partir, carregando os instrumentos de trabalho e o farnel e desafiando o ar frio da madrugada. A casa caía de novo no torpor morno das mantas. Só a altura do sol, no céu, anunciava a chegada dos homens da labuta diária, ao qual as mulheres se juntavam, quando o trabalho se avolumava. As mulheres acelaravam o passo, da cozinha para o quintal, dando ao homem tudo quanto ele necessitava para o seu bem-estar: bacia de água limpa para se lavar, a toalha, as meias e chinelos... e mesa! Todas as refeições eram alegres e conversadoras, cruzavam-se risos sobre a mesa, histórias engraçadas do dia-a-dia, de trabalho ou da convívio... Depois deste, o café... trocava-se o calor da lareira e a luz tremeluzente do candeeiro a óleo, pelos caminhos estreitos e escondidos pelo manto escuro da noite, iluminados apenas pela longínqua luz das estrelas que furavam insistentemente a escuridão e o cone de luz das lanternas. Era ali que se encontravam todos os homens da aldeia numa amena conversa, revelando o respeito e a entreajuda existente entre a população, quase toda primos e primas, uns mais afastados outros menos, outros cujas raízes genealógicas se haviam cruzado com as nossas para se perderem depois para sempre. Todos se conheciam desde miúdos e todos se sentiam como família com histórias que se cruzavam nas suas vidas. Nós, os mais novos, ficávamos em casa, perpetuando a luz difusa do candeeiro e o calor das brasas moribundas, aconchegando-nos aos mais velhos da famíla, que nos acarinhavam com histórias e outras narrativas populares de tradição oral que nos transportavam para reinos longínquos de reis, princesas, fadas, mouras encantadas, truques de cartas,... Quando as brasas já não justificavam a nossa presença ali, os velhotes procuravam o aconchego das mantas da sua cama e era lá que nós os encontrávamos para continuar o serão. Lembro-me especialmente de uma noite mágica em que eu e a minha prima Carmita, com mais uma ano do que eu, sentadas no chão, de pernas cruzadas debaixo do corpo, assistíamos encantadas a verdadeiros momentos de magia, contos e aquele quarto exíguo, onde só cabiam a cama de casal de ferro e a arca, arrumada aos pés da cama e encostada à mesma parede da cama. O único espaço disponível formava um corredor que ia da porta à janela de portadas fechadas, junto da qual havia uma mesa pequena, com um candeeiro a óleo que projectava sombras nas paredes... de repente, esse quarto abria-se, eu e a minha prima, levadas pelas asas da nossa imaginação, éramos transportadas para esses reinos fantásticos e misteriosos, povoados de seres mágicos, vivendo todas aquelas emoções geradas pelos enredos narrados. Eram três horas da manhã quando acordámos da nossa viagem imaginária. O tempo passara por nós e nem déramos por ele... Que noite fantástica!


publicado por fatimanascimento às 05:00
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