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Quinta-feira, 16 de Abril de 2009
À vista de todos não passava disso mesmo – uma toalha de praia. Para mim, era uma boneca como as outras, com uma vantagem: era macia sempre que apertada ao peito.
Já não lembro como surgiu. Talvez fosse a vontade da solidão ou do vazio que me rodeava. Nasceu como o sol num claro e quente dia de verão, amenizando o meu inverno. Era perfeita! No veludo cor-de-rosa, esculpido pela imaginação das minhas pequenas mãos rechonchudas, eu diferenciava claramente os olhos do nariz, a boca do queixo, o cabelo da fronte alta… até aposição dos braços eu conseguia descortinar! Tudo nela era perfeito!
Brincava com ela nas altas e brancas dunas que se estendiam, qual tapete ondulante, semeado de conjuntos de altas e finas hastes verdes que ondulavam ao sabor da húmida brisa e camarinheiras de aspecto rude evidenciando orgulhosamente os seus minúsculos frutos brancos e redondos dando ao ar um sabor adocicado, até ao areal da praia. Era nesse pequeno paraíso que eu brincava, nas horas que não estavam destinadas às brincadeiras nas frias águas salgadas, profundamente azuis e verdes da praia que se erguiam no ar, em majestosas ondas para, logo de seguida, se desfazerem em grossos bordados de espuma que nos acariciavam os pés. Atravessava a estreita rua alcatroada de onde se soltavam pequenas pedras azuladas do alcatrão mal colado e descia a bela duna de areia fina, aninhando-me no seu aconchegante útero quente, batido por um sol impiedoso, que o ar húmido não protegia. Era ali, longe dos olhares indiscretos e avaliadores dos adultos que se desenrolavam as brincadeiras. Sozinha, eu dava largas à minha imaginação, retirando dela todas as possibilidades… e nunca me aborrecia! Aliás, esperava todo e qualquer momento para me refugiar no meu canto gozando da liberdade que escapava ao controlo maternal, que sempre olhava reprovadoramente estes isolamentos voluntários. As brincadeiras poderiam ocupar horas seguidas, tardes ou manhãs frias nada convidativas para o mergulho no esquivo e brutal oceano cuja imperiosa ondulação desencorajava até os mais audazes. Amava o mar e, mesmo perdida naquela alva duna, eu ouvia a sua voz imperiosa exigindo a minha presença, procurando localizar-me no meio daquela alva ondulação quase tão alta como a sua. Enviava mensagens no ar, que impregnava da sua água salgada, e ordenava aos exércitos do ar que espiassem os meus movimentos, numa tentativa desesperada de me recuperar. A sua voz forte, rouca e profunda, que estalava aos ouvidos como chicotes, perpetuava-se na calma dos dias invadindo a privacidade das noites. As paredes, amedrontadas com a violência da sua voz, deixavam-se trespassar pelo áspero som da sua voz fazendo as frágeis janelas de guilhotina estremecerem nos caixilhos, deixando escapar traiçoeiros farrapos de vento, quando, estarrecidas, se encolhiam dentro de si. No meu quarto, agarrada à minha suave boneca de toalha, tapada com os cobertores cinzentos de lã, que me protegiam das noites frias dos finais de Setembro, eu escutava a voz imperiosa exigindo a minha presença… Uma manhã, ele conseguiu uma inesperada aliada. A minha mãe exigiu que fosse à praia. Com medo do que se seguiria, lá segui os meus pais. Como sempre, o meu e eu trocámos o caminho de terra batida de tom alaranjado, pelas largas rochas que limitavam o leito do rio. Chegados à praia, o mar parecia louco de contente por me ver. Vencera o duro braço de ferro! Sentei-me, olhando-o, como fazia havia muito, sempre acompanhada da minha inseparável amiga. Até que alguém decidindo que já havia aturado tempo suficiente aquela situação, desfez o encanto devolvendo a minha improvisada boneca à condição de toalha. Minutos depois, o meu corpo era brutalmente entregue às águas violentas do oceano, onde água e areia se uniam num açoite conjunto, fazendo-me pagar o preço por tão longa ausência. O cruel amigo ciumento arranjara um modo de recuperar toda a minha atenção para ele. Dentro de mim, algo se desfizera com o desaparecimento da boneca devolvida à forma de toalha com que me secavam… Um choro sem lágrimas escorria da minha alma, sem que ele se apercebesse…


publicado por fatimanascimento às 12:30
Sábado, 03 de Maio de 2008
eregrinação do país – a igreja de Nossa Senhora da Lapa. Esta história vai ser contada pelas minhas palavras, ajudada pela minha memória.
(À minha mãe, pelas histórias que me contava oralmente, quando tinha paciência, e que povoaram parte da minha imaginação…)

Gradiz era uma aldeia pequena, que, com o tempo cresceu, sendo elevada a freguesia, há algum tempo atrás. Ao lado, há uma localidade irmã, a Lapa, da qual esteve separada durante muitos anos, pelos cabeços naturais e, para as populações se deslocarem, tinham de andar muitos quilómetros apanhando a estrada nacional ou atravessar os mesmos. Há alguns anos atrás, a tão desejada estrada foi aberta, ligando, definitivamente, as duas populações. Pertence a esta última a história que vou contar. Esta história, com o tempo, foi-se espalhando, tornando esta localidade mais um dos destinos de peregrinação

O frio era cortante, mas a menina parecia nem parecia senti-lo. Protegida pelo lenço áspero na cabeça, as camisolas de lã sobrepostas, no cimo das quais repousava o xaile escuro, as pernas protegidas pelos saiotes e a saia, juntamente com as meias e as botas, a pequena trabalhava cuidadosamente. No alto da lisa colina rochosa, olhou distraidamente o rebanho que, mansamente, pastava à sua frente, para lá da fogueira, que crepitava alegremente. Tudo em ordem. Em redor, não se via ninguém. Raramente se via alguém, por aquelas bandas. Só alguns caçadores se aventuravam naquelas paragens, com aquele tempo. Voltou a mergulhar a cabeça na sua querida tarefa. Tão concentrada estava, que não deu pelos passos que se aproximavam apressados. Sobressaltou-se com a voz dura e aguda que cortava os tímpanos. Saltou do grosso ramo, que lhe servia de assento, e olhou o rosto vermelho de ar frio, distorcido pela raiva.
- Com que então é assim que passas o teu tempo? – perguntou-lhe a recém chegada, no mesmo tom azedo.
A rapariguinha olhou para o chão, envergonhada. O seu coração batia apressadamente. A mulher olhou para uma das mãos da garota de onde pendia um comprido rolo de trapos coloridos. Dirigiu-se à pequena e arrancou-lhe os trapos das mãos. Olhou para eles atentamente. Os trapos artisticamente ligados uns aos outros. Calculou o tempo que terá levado a fazer. E repetiu furiosamente, virando-se para a filha:
- É assim que passas o teu tempo?
A menina, de olhos baixos, estava petrificada. E, pela primeira vez, parecia tremer, como se fosse, finalmente, o frio se apoderasse dela.
- Quer dizer que em vez de trabalhares, estás a perder tempo com estas porcarias? – tornou na mãe. - Eu já te mostro o que vou fazer com isto. – ameaçou a mãe, dirigindo-se à fogueira.
A menina, adivinhando as intenções da mãe, gritou:
-Tate, mãe. É Nossa Senhora de Lapa! – gritou a menina, aflita.
A mãe retirou às chamas a boneca que ficara com uma mancha escura numa das faces da boneca.
A mãe, ainda confusa, tentou limpar, se sucesso, o sinal deixado pelo lume. Olhou para a filha sem compreender, quando, alarmada, notou que a filha tinha numa das faces, uma réplica exacta daquela que a boneca exibia. Perplexa, a mãe começou a olhar à sua volta notando situações para as quais não tinha explicação: o gado pastava sempre no mesmo sítio e andava gordo, na fogueira ardiam chamas altas, quando nela não havia mais do que brasas e, agora, a cara da filha, para além da voz da filha que ouvia pela primeira vez.


publicado por fatimanascimento às 04:42
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