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Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008
Elas percorriam os muros do meu quintal. Deitavam-se ao sol quente da tarde, e ali permaneciam sem que ninguém as incomodasse. Faziam parte da paisagem. Se alguém se aproximasse, elas desapareciam numa corrida vertiginosa, descendo os muros rumo a destinos desconhecidos, escondidos nos buracos dos velhos muros rachados. A atrapalhação acontecia quando nos cruzávamos, em sentido contrário, em cima do muro, quando me resolvia a treinar o meu equilíbrio em cima deles. Adorava percorrer aqueles muros, de braços abertos, parando nos cantos, onde descansava ambos os pés, ao lado um do outro, ligeiramente afastados. Sempre que nos cruzávamos ou eu ou elas desistíamos dos nossos propósitos: eu saltava, sempre que as via, e elas desapareciam, sempre que me viam. Respeitávamos o espaço umas das outras. Nada de interferências. Mesmo quando nos havíamos já habituado à presença umas das outras, o respeito continuava. A vida decorria sem sobressaltos para ambas as partes. Até que um dia, um vizinho meu, que vivia numa vivenda ao lado do meu prédio, só separada por um muro que galgávamos com facilidade, sempre que não nos apetecia dar a volta e abrir o portão, resolveu inventar uma nova diversão: a caça às lagartixas. Nunca tal me passara pela cabeça, mas ele pensava que os muros do meu quintal tinham excesso de população réptil. Apesar de familiarizada com a presença delas, eu não nutria um especial carinho por aquele tipo de animais. Nunca me haviam feito mal, pelo que não me preocupava com elas. Depois, não se conhecia nenhum risco especial derivado da sua presença, ao contrário do que acontecia com as suas primas osgas.
Apresentou-se então o meu vizinho, uma tarde, com uma redonda e achatada caixa metálica, antes cheia com graxa dos sapatos, e que serviria de prisão às cativas lagartixas. Curiosas, eu e as restantes vizinhas do bairro, observávamos o exímio exercício. Ele abria a caixa, com a tampa e a base formando um ângulo agudo, nós fazíamos grande algazarra, e o bicho, completamente aterrado, procurava fugir, tentando bater em retirada, e sem poder devido ao cerco a que fora submetida. Era então que ele avançava com a caixa, devagar, com a tampa já mais descaída, para que elas vissem sombra, e se enfiassem nela. Conseguiu aquela proeza inúmeras vezes, devolvendo-as, depois, ao seu habitat. Mas, um dia, o exercício não correu muito bem, e a lagartixa, devido à precipitação do meu jovem vizinho, ficara com a cauda entalada. Ele tentou abrir a caixa devagar, para não a magoar, mas era demasiado tarde – estava cortada! O pobre bicho regressou ao seu esconderijo natural sem ela. A partir dessa tarde, sempre a diferenciámos facilmente das outras, pela pior razão. Impressionados com o resultado trágico, nunca mais voltámos a brincar de forma tão cruel.


publicado por fatimanascimento às 06:41
Sábado, 03 de Fevereiro de 2007
O Carnaval tem o seu encanto, como sempre o teve. Mas, como em tudo, a acção humana é decisiva. Quando era pequena, o Carnaval não passava de pequenas brincadeiras dispersas, de máscaras improvisadas, silenciosas e algo envergonhadas que desfilavam ajuizadamente junto dos familiares. No meu bairro, de meia dúzia de casas, éramos nós que dávamos o acorde carnavalesco. Assaltávamos o guarda-roupa familiar e tirávamos de lá o que nos agradava (ou o que nos deixavam trazer), tudo roupa usada e, a maior parte dela, já posta de lado, destinada a amigos ou familiares mais pobres que as acabavam de romper na lida dos campos, às vezes, roupa ainda boa que deixava de servir aos nossos pais, amigos ou filhos mais velhos destes que, como não tinham a quem as dar, as davam a pessoas, cujos familiares e amigos, habitavam uma aldeola próxima. Era a época em que dávamos mais corda à imaginação, e, tal como na Cinderela, as nossas vestes simples e gastas transformavam-se em cortes reais distintos, faiscando às numerosas luzes do palácio imaginário. Era a altura de assumirmos o papel de personagens nossas conhecidas, por nós reinventadas. E todo o encanto durava o tempo das nossas brincadeiras e fantasias. No final do dia, separávamo-nos muito tristes e pesarosos, sonhando já com as brincadeiras do dia seguinte, que continuavam ou davam lugar a outras novas, quando se dava o caso de encontrarmos novas roupas que davam ideias a novas personagens e brincadeiras. À medida que fomos crescendo, esse gosto pelo carnaval pareceu perder fôlego. Limitávamo-nos a observar indolentemente os outros mais novos ou os desfiles organizados noutras localidades, que, após alguns anos, ganharam algum prestígio. A par com o Carnaval, começaram as brincadeiras dos ovos e farinha, bombas de mau -cheiro, bombas carnavalescas, etc. que em nada contribuíram para o prestígio do mesmo e só dando gozo àquele tipo de pessoas cujo divertimento só tem graça se for à custa dos outros. Depois, com a idade adulta, quando se começa a conhecer melhor a natureza humana, para mim, o Carnaval nada mais era do que uma troca de máscaras- a pessoa troca a máscara que transporta diariamente para assumir aquela que mais a deslumbra por qualquer motivo, seja ele qual for, embora esta em nada rivalize com a naturalidade da primeira. É que aquela tem um treino diário e esta só é usada nesta época. Devo dizer que este tipo de Carnaval nada me diz... no entanto, olho para um Carnaval como o de Veneza, onde toda uma cidade veste uma determinada personagem, numa máscara perfeita que em nada trai a verdadeira identidade do portador. As pessoas falam umas com as outras, divertem-se, escondendo sua verdadeira identidade e assumindo completamente a identidade da personagem por eles escolhida, sem atropelos, sem brincadeiras de mau gosto, só pelo prazer de assumir um papel diferente, que o eleva por momentos a um mundo diferente daquele que vive no dia a dia. É este o verdadeiro espírito carnavalesco, pelo menos, da forma como eu o entendo. Assim, vale a pena haver Carnaval... e vivê-lo!


publicado por fatimanascimento às 07:37
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