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Terça-feira, 15 de Julho de 2008
O sol estava alto. As caras franzidas, vermelhas do esforço, pararam e encaram-me. Regressara, há pouco, da praia e vira-os a jogar à bola, no largo. Saí de casa e fui ao encontro deles. Rapazes e raparigas jogavam à bola. Saudaram-me de olhos semicerrados, devido à claridade do sol:
-Que estás a comer? - a pergunta já familiar não me surpreendeu.
Era um rebuçado de morango, que me haviam oferecido na viagem. Colocara-o, havia pouco tempo, na boca e apenas começara a provar o seu sabor agridoce. Preparei-me para o que se seguiria. Várias mãos se estenderam na minha direcção:
-Dá-me um bocadinho! – pediram, em uníssono, várias vozes suplicantes. Eu hesitei por momentos. Eram tantos para um só rebuçado, já parcialmente derretido! Olhei aqueles olhos ansiosos, cansados do esforço recente e tomei a decisão. Parti o rebuçado com os dentes e comecei a distribuí-lo por todos. Coube um pedaço minúsculo a cada um, mas ninguém refilou, embora eu tivesse notado que alguns repararam, nos tamanhos dos pedacinhos. As vozes emudeceram saboreando aquele momento de descanso frutado. Sentaram-se no passeio, em frente do meu prédio, curvados pelo peso do cansaço. A bola, já gasta, parada aos pés do dono, olhava-nos amorosamente. Uma aragem, aproveitando o final da tarde, esgueirou-se dos ramos das árvores, cujas folhas dançavam serenamente, e veio presentear-nos com o seu bafo ainda morno. Kimba, muito aconchegado a um nós, foi afastado com cuidado. A sua língua cor-de-rosa pendia dos dentes afiados, acusando o calor. Os olhos amorosos perdidos no ar, pareciam esperar algo.
O grupo continuava calado saboreando aquele momento de descanso. As férias? Tinham sido curtas, para a espera ansiosa que eu experimentara. Tinha conhecido rapazes e raparigas, mais ou menos da minha idade, com quem eu partilhara as minhas brincadeiras. Era um local seguro, com muito pouco movimento, tal como o que tínhamos ali. De um lado o rio, dos outros, as dunas rodeavam o pequeno aldeamento, de pequenas casas amarelas, e, para lá delas, o mar que batia fortemente as suas águas contra o areal ferido e a rochas aguçadas. Era ao som dele, que adormecia. Era durante a noite que a sua voz forte percorria as ruas desertas, com o seu canto lamentoso.
Eles escutaram atentamente o meu relato, de olhos fixos no ar ou no chão.
Sempre regressara com saudades, mas, sempre que os via, sentia-me em casa.


publicado por fatimanascimento às 13:53
Domingo, 25 de Maio de 2008
Era um edifício pequeno e acolhedor. À entrada, o largo portão azul, no cimo da íngreme ladeira, abria os braços às bocas esbaforidas e ao rosto vermelho do esforço da subida. O impiedoso sol estival esgrimia os seus raios na direcção dos audaciosos aventureiros que ousavam importuná-lo àquela hora da tarde. O espaçoso pátio empedrado, de estreitos canteiros rectangulares, evidenciava os seus pequenos arbustos frondosos e coloridos que ladeavam a passagem de acesso ao edifício. O interior, submerso na fresca obscuridade das cortinas corridas, desprendia um silêncio acolhedor só interrompido pelas tímidas vozes sussurrantes ou pelo ruído dos passos abafados, espelhados na cera polida dos tacos largos. O agradável cheiro a cera fresca inundava a sala disputando a sua supremacia ao das folhas amareladas e finas dos livros muito manuseados.
A senhora da recepção, debruçada sobre os papéis da secretária, levantou a cabeça à minha chegada. Os óculos de lentes pequenas, equilibrados na ponta do nariz, agravavam o ar austero, que o seu olhar seco projectava em mim. A boca de lábios finos, abriram-se para pronunciarem um breve “Sim?!”. Depositei os livros em cima da mesa, que me haviam feito companhia nos últimos quinze dias e que haviam percorrido todo o caminho aconchegados ao meu peito suado. Entrei na sala. Duas ou três cabeças espalhadas pela sala de leitura, de olhos cravados nos livros, nem deram pela minha chegada. Dirigi-me aos armários, de estantes irrepreensivelmente limpas, guiada pelas instruções prévias da senhora. Olhei os armários cujos vidros, protegidos por uma espécie de rede metalizada, guardavam fielmente o seu tesouro. A madeira das portas, ligeiramente inchada pelas humidades dos Invernos mais rigorosos, dificultava a tarefa da sua abertura. Os livros, de tamanhos e grossuras variados, perfilados nas estantes, jaziam adormecidos, totalmente alheios ao ar morno destilado da brisa que atravessava as cortinas fechadas, sacudindo-as mansamente. O ruído da porta a desprender-se do seu encaixe, fez levantar as cabeças, antes absortas, dos vários cantos da sala de leitura. A senhora da recepção acudiu solicitamente, alarmada com o ruído. Depois de uma breve inspecção, e vendo que nada fora danificado, ela explicou que aquela porta necessitava da intervenção urgente de um carpinteiro que demorava em vir. Muito vermelha por ser o centro inesperado das atenções da sala, e de coração ainda a bater apressadamente, apressei-me a acenar em sinal de concordância. Uma vez sozinha, frente àquela porta inoportuna, procurei rapidamente os livros que necessitava e a mesa do canto mais distante e discreto. Tarde demais. Um puxão na minha camisola de manga curta de algodão, fez-me parar. Ao lado, sentado a uma das mesas centrais, estava um amigo meu, um ano mais velho, filho de um colega do meu pai. Trocámos algumas palavras, olhando, de vez em quando, para a entrada e à volta, para nos certificarmos que não estávamos a incomodar os presentes. Ninguém pareceu dar pela nossa conversa, a não ser um rapaz que, de vez em quando, e parecendo ter dificuldades em se concentrar, nos olhava sem rancores visíveis. Segui o meu caminho, rumo ao recanto descoberto minutos anos, e mergulhei no refúgio imaginário de uma das minhas autoras favoritas. O tempo voou. Uns toques ligeiros no meu ombro, e um sorriso afável, avisaram-me que tinha chegado hora. Olhei à volta e reparei que todos se levantavam e arrumavam as cadeiras, junto das mesas imperceptivelmente. Levantei-me, acompanhada dos livros que queria requisitar e dirigi-me à recepção, sempre seguida do meu inesperado acompanhante. Acabados os trâmites necessários, saímos para a tarde morna daquele fim de dia de verão, falando e rindo abertamente.

Fátima Nascimento


publicado por fatimanascimento às 09:50
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