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Terça-feira, 05 de Maio de 2009
Passeava-se majestosamente no jardim público, arrastando a sua cauda como se de um manto real se tratasse. A pequena cabeça bem erguida no ar, sustentando a nobre e alta coroa de cintilantes safiras e esmeraldas, olhando em frente e para os lados atento nos gestos do grupo infantil disperso pelo seu reino. Observava-as do alto da sua vaidade, incomodado com as correrias e os gritos que cruzavam a sua real e solene caminhada, desviando-se, mesmo a tempo, das mais intrépidas crianças, evitando o choque que desfiguraria a seu majestoso traje colorido. Juntou-se ao restante grupo, numa tentativa solícita de esconder a sua justa inquietação por tão nobre vestuário. Pelo chão, aqui e ali, algumas longas e vistosas penas, acenavam os seus coloridos filamentos à passagem da brisa quente do mês estival, em jeito de cordial saudação. O bando afastou-se, no seu real passo lento, observando a invasão do nobre espaço, com manifesto desagrado, como acontece com os habitantes das pequenas aldeias, quando observam, desalentados, as atitudes dos estouvados veraneantes. O pavão olhou para trás, desconfiado, enquanto seguia os seus colegas. Algumas crianças, nesse momento, haviam trocado de brincadeira, como quem troca uma camisola de manga curta ensopada de suor. Dedicavam-se a apanhar as longas penas abandonadas, exibindo-as na mão à laia de ramo. Havia uma que não tinha e, quando corria para apanhar uma, uma outra parecia ler magicamente os seus pensamentos, antecipando-se-lhe, e erguendo a real pena gasta como um troféu, vangloriava-se a sua proeza. O pavão parou. O resto do seu bando avançou, cautelosamente, lançando olhares inquietantes. Não entendia muito bem aquele jogo. Ele e os seus companheiros dedicavam-se a actividades de lazer mais calmos, dignos da sua já longa posição na alta hierarquia social. A criança continuava a sua desajeitada procura, sempre superada por alguém que, naquele desafiador jogo, estendia a mão ávida à longa pena colorida, para simplesmente bater nas costas de outra mão mais veloz. O pavão lia a frustração no rosto confuso daquela menina que não compreendia a antecipação das suas colegas. Subitamente, do lado do bando registou-se uma agitação. O grupo, sobressaltado, tentava proteger-se das incursões infantis, cujas mãos se estendiam perigosamente na direcção das suas reais caudas. A brincadeira alastrava-se pela pequena multidão como uma súbita febre contagiosa. Os pequenos seres haviam decretado a abertura caça à pena. Procuravam-nas por todo o parque, dispersando-se como setas em todas as direcções. Algumas possuíam uma verdadeira colecção, sob a cumplicidade sorridente dos adultos.
A terra lutava, agora, contra a água fria que teimava invadi-lo com os seus persistentes jactos, lançando ao ar o arrepio do contacto com o seu corpo quente. A terra, indignada, libertava o seu suor quente que se insinuava nas narinas dos humanos.
O pavão não havia abandonado o seu posto de observação. Só um inesperado jacto de água o convenceu a mudar de posição. Não despregava os olhos daquela criança que, alucinada pela teimosia de encontrar uma pena para si, ignorava todos os sinais indicadores do recolher. Olhava insistentemente à sua volta na esperança de levar consigo uma recordação. O pavão não sabia muito bem que atitude esperar daquela face hipnotizada pela ideia. O pavão poderia afirmar que havia, entre aqueles pequenos seres humanos, alguns que se divertiam com aquela infrutífera busca, que eles pareciam, de alguma forma mágica, controlar. Que seres estranhos e cruéis! – pensou o pavão, alarmado com a cena que se desenrolava à sua volta. Até que os seus olhos se cruzaram. Os longos braços adultos agitavam-se no ar reunindo as crianças dispersas. Aquela ficara, ali, parada, olhando-o de forma estranha como se uma ideia lhe tivesse penetrado o espírito. Uma súbita inquietação tomou conta de si, quando a viu, desobedecendo às ordens peremptórias, caminhar na sua direcção. O pavão retomou a sua marcha, com uma estranha sensação, sempre vigilante às atitudes infantis. Ela rodeou-o quando ele já se juntara ao seu grupo. Foi exactamente esse o momento escolhido pelo pérfido desígnio. Enquanto ele olhava alarmado a aproximação daquele valente corpo infantil. Uma mão estendeu-se e uma inexplicavelmente dor aguda invadiu o seu corpo. A escolha do grupo revelara-se inútil. Ela não temera o número do bando. Ele não se conseguira, por falta de espaço, defender-se convenientemente. Ela corria, agora, no sentido contrário com a sua querida longa pena colorida em tons azuis esverdeados, cuja ponta desenhava um enigmático olho semelhante às pinturas faciais de tons carregados exibidas por algumas senhoras. Uma estranha fúria tomou conta de si. Largou a correr desenfreadamente, tanto quanto o seu pesado e majestoso corpo lhe permitia, atrás da pequena figura. Alguns gritos alertaram para a estranha situação. O trabalhador municipal interrompeu a inaudita perseguição, travando os desígnios do enfurecido pavão, enquanto procurava desesperadamente uma explicação para o fenómeno. Esta viria mais tarde na boca de um colega que vira, à saída do parque, as mãos cheias de penas coloridas.
No caminho de regresso à colónia de férias, a inusitada perseguição não saía de cabeça da pequena. Sozinha, atrás da pequena multidão que se arrastava pelo passeio estreito daquela cidade do sul, tal como o bando que se passeava pelos jardins do parque, ela, atrás, tal como o pobre animal de rica plumagem colorida… tanta semelhança! Eram seres vivos como ela e, por isso mesmo, teriam de ser respeitados. A culpa remoía-lhe o espírito. O troféu da vergonha escondeu-se num caixote do lixo, plantado no caminho. Não sabia se conseguiria voltar àquele parque e encarar o animal. Mas voltou passados alguns dias. O difícil momento chegou. Não se juntou às brincadeiras. Ficou parada a olhar à sua volta. O bando tinha sido prudentemente retirado do contacto com os humanos. Ela aproximou-se da cerca. Os dedos colaram-se à renda de arame. Os olhares cruzaram-se. Neles, a fúria tinha sido substituída por um sentimento de remorso e um pedido mudo de desculpas. Há um mágico e secreto entendimento que ultrapassa, em muito, as palavras e que é comum a todos os seres vivos. O pavão voltou-se para acompanhar a solene marcha do seu grupo. A paz voltou a encher as duas almas, embora não apagasse delas o infeliz episódio.


publicado por fatimanascimento às 10:04
Terça-feira, 03 de Abril de 2007
Acabada a escola, a perspectiva das férias, o tempo livre que elas proporcionavam mexiam constantemente com a minha imaginação e criavam uma grande expectativa. O espaço que dispunha e a natureza deste apelavam às férias! Mas só o mês de Setembro, para mim, era sinónimo de férias. Estas eram passadas na praia... quase sempre na última quinzena do mês de setembro. Como terminava as aulas na meio de Junho, passava os meses de Julho e Agosto numa expectativa interminável. O resto de mês de Junho era fácil, passava depressa, na companhia dos amigos do bairro, mas, quando estes partiam para férias, aquele bairro transformava num deserto escaldante. Percorria aquelas ruas escaldantes, olhando as casas adormecidas sob o sol impiedoso, à procura de alguém da minha idade, com quem pudesse partilhar os meus dias solitários. Nessas tardes silenciadas por um sol despótico, nem os animais mais afoitos se viam ou ouviam. Grande parte das vezes, após uma busca infrutífera, recolhia à fresca penumbra da minha casa, onde, à falta da televisão cujo horário ainda não abrangia as tardes semanais, imaginava brincadeiras com os parcos brinquedos que tinha e lia alguns livros, que pedira emprestados à recheada biblioteca infantil e juvenil da minha amiga de infância que vivia numa vivenda perto da minha casa. Quando me cansava, eu, que sempre fui muito madrugadora, toda a minha vida, e para quem as manhãs sempre foram um abrigo fresco, dedicava-as a observar a natureza nas suas mais diversas componentes (animal, vegetal...) e a fazer explorações, aventurando-me pelo carreiro das cobras, o olival ou simplesmente brincando em cima das oliveiras. Mas, nem sempre as tardes eram assim tão bem aproveitadas e lembro-me de algumas tão silenciosas e vazias que quase me levaram ao desespero! Eram as tardes tórridas, quando o sol despótico me impedia de sair em busca de companhia, quando a concentração me fugia para parte incerta e parecia não haver nada para fazer... então a solidão, a minha companheira habitual, desde pequena, encavalitava-se e passeava-se nos meus ombros de um lado para o outro da casa. Quando contei a uma amiga de infância, ela, muito generosamente, ofereceu-me os brinquedos dela uma vez que, durante as férias, ela não os utilizava. Fiquei grata e admirada ao mesmo tempo, mas hesitei e contei-lhe as minhas reservas. Ela recusou-as e contou-me onde deixava a chave da garagem, pedindo que não contasse nada a ninguém. Continuei com as minhas reservas... que nada, que me deixasse disso... Sacudi a cabela decidida a esquecer o assunto. A ideia de mexer nos seus brinquedos, durante a sua ausência não me parecia muito correcta, mesmo com a autorização desta... Num daqueles dias de pesada solidão, eu lembrei-me das palavras da minha amiga... Seria verdade? Poderia mesmo acreditar nas suas palavras? Depois de muita luta comigo própria, decidi-me, mas sempre com um sentimento de reprovação e medo dentro de mim... Saí de casa com a ideia de ir buscar os brinquedos e, depois de brincar com eles, colocá-los no sítio. Encontrei facilmente a chave onde a minha amiga me dissera, abri o portão e retirei de lá os brinquedos, trancando novamente o portão da garagem. Regressava com balde mão direita, quando, antes de chegar ao portão da rua, encarei com a mãe da minha amiga! Eu não percebi nada! Ela afinal estava em casa e não me dissera nada. E eu que desesperava por companhia numa casa vazia... Mandaram-me colocar o balde dos brinquedos no sítio e, depois de um interrogatório, pediram que desapacesse. Eu tremia toda sem compreender nada do que se passava! Obedeci imediatamente, muito envergonhada! Mesmo a minha amiga negara a conversa que antes havíamos tido! Não se lembrava de nada! Isto deu falatório para uns poucos de dias: eu havia sido apanhada a roubar os brinquedos da minha amiga! Conteu tudo à minha mãe que me confortou gritando que era bem feito por ter acreditado nas palavras da minha amiga, e que só com autorização da mãe dela poderia ter tomado tal atitude. Eu engoli em seco, cheia de remorsos por ter sido tão ingénua! Sentia-me só, injustiçada e abandonada. Até os outros, depois das suas férias, pareciam olhar-me de maneira diferente, quando tomaram conhecimento do que acontecera. Também a minha amiga me olhava de forma diferente! Eu tentara roubar-lhe os brinquedos, dizia o olhar acusador! A situação prolongou-se até que uma amiga comum de infância, ouvindo o meu relato e o dela, descobriu o que se passara realmente, confrontou-a, contou à mãe e... tudo se resolveu, com grande alívio meu e, curiosamente, dos outros meus amigos, que não cessavam de me repetir que fora por pouco. A mãe da minha amiga, dona dos brinquedos, contudo continuava a duvidar de mim. Mas que me importava a mim? Eu tinha aminha consciência tranquila... e os outros que acreditavam em mim!

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publicado por fatimanascimento às 17:03
Segunda-feira, 04 de Dezembro de 2006
Recordo-a com uma nitidez que assusta, é como se eu nunca tivesse saído de lá. As manhãs acordavam invariavelmente frias e húmidas, assim como as noites, só as tardes eram quentes e aprazíveis. A costa acordava invariavelmente imersa num nevoeiro branco, denso e agreste que cobria tudo. Acordava cedo, com o barulho das ondas a desfazerem-se na praia, o cheiro a maresia a insinuar-se nas narinas e a aragem fria penetrando pela janela quadriculada de guilhotina. A construção frágil tinha uma decoração simples a condizer: dois quartos de casal, um de duas camas, uma casa-de-banho, a cozinha e o hall de entrada situado atrás da meia parede branca desta última. Ali, havia uma cama de ferro de corpo e meio igual ao quarto de duas camas destinado sempre aos miúdos. Muitas vezes ficámos sozinhos mas outras tínhamos a companhia de outro casal com uma filha. A porta, virada aos pés da cama, era atravessada pela luz crua e fria da madrugada. Dela podia ver-se a segunda fila de casas amarelas que ladeava a rua principal e, depois dela, as outras duas desenhavam-se mais ao longe. Da outra porta da cozinha, virada a oeste, avistavam-se as dunas brancas de areia fina e macia, que se estendiam até à praia; todas elas cobertas de vegetação rasteira e fina, e de outra de folha mais larga e recortada de picos, e as camarinheiras mostrando o seu fruto branco, arredondado, minúsculo e amargo, ondulando mansamente ao vento fraco e fresco de Setembro saturado de maresia. Do lado oposto do bairro, a elevada ondulação de areal, alisada pelo vento caprichoso, sustentando as raízes dos altos e esguios pinheiros bravos. As ruas desenhavam uma elipse à volta das quatro filas do bairro, cortada ao meio por outra mais larga, ao fundo da qual estava o café-mercearia. A norte, o bairro era limitado pelo leito do rio preparando-se para desaguar nas salgadas águas do oceano, mais à frente, junto das rochas negras e rugosas, que ornamentavam ambas as margens do rio, junto do estreito estuário do rio. Todo o leito estava emparedado por rochas geometricamente talhadas e dispostas disciplinadamente umas em cima das outras, que impediam as águas de sair das suas margens naturais. Do outro lado, recomeçava o areal fino rigorosamente vigiado pelo exército de altos pinheiros. Era precisamente o rio que demarcava a fronteira territorial das duas localidades vizinhas confinadas a norte. A sul, para lá das dunas planas, semelhantes a um deserto branco, que se estendiam por breves quilómetros, as primeiras casas, aninhadas atrás da grande duna que as separava da praia, belas vivendas de veraneantes assíduos, distribuídas por ruas paralelas, cortadas por outras filas de casas e ruas que se encaminhavam para a beira-mar. Estas dunas eram limitadas a leste pelos muros da escola primária e pela fila de casas que ladeavam a única estrada que ligava o bairro à aldeia de pescadores. Da aldeia de pescadores, cujas casas e ruas estavam perpendicularmente dispostas, destacava-se a igreja, junto à entrada da localidade, toda construída de altas tiras de madeira escura envernizada, e cujo campanário se erguia acima de todas as outras construções mais próximas, estas mais baixas e modestas. Em momentos de mau tempo, várias pequenas figuras delgadas, escuras e esvoaçantes corriam em direcção a ela, vindas de várias pontos da aldeia, ao toque do sino, deixando cair atrás delas pedaços de gemidos, gritos e orações começadas à pressa e em aflição. As mais novas corriam à praia e outras aos rochedos de onde perscrutavam ansiosamente o horizonte, à luz dos relâmpagos, à procura daqueles compridos, coloridos e altos barcos a remos que tinham partido ainda de madrugada e ainda não haviam voltado da faina. As vozes entrecortadas pela aflição, dirigiam preces ao céu cinzento abafadas pelo vento e o barulho da cortina de bátegas grossas desfazendo-se nos rochedos. As mãos, de dedos fortemente cruzados, faziam eco surdo daquelas soluçantes vozes. Manchas mirradas e escuras engrossavam o magro grupo, nas lamentações e nas preces, estas mais baixas, graves e cheias de fé, das quais se destacavam os gritos agudos das vozes mais jovens, temendo o pior… Algumas, já quase desfalecidas, deixavam-se conduzir pelos braços da razão, virando sempre o rosto na direcção do mar, numa esperança que se despedaçava contra aquele horizonte negros. Lentamente, a praia foi-se esvaziando, despedindo os gritos e as preces em todas as direcções. Dos rochedos, lutando contra o desespero e a angústia, apenas iluminada luzes rápidas dos relâmpagos, uma mancha dobrada sobre si mesma, resistia à intempérie. Subitamente, um grito lancinante libertou-se e atirou-se contra a fúria da natureza, rasgando tudo à sua volta, abrindo caminho até ao céu carregado. Mas nem sempre era assim, naquela pequena comunidade, onde toda a gente se conhecia, se ajudava. O casamento, os baptizados e as demonstrações de fé eram momentos de alegria onde toda a gente participava. Depois, a busca por uma melhor vida, levou os filhos daquela terra a procurarem um meio de vida melhor e mais seguro, e, os que não partiram em busca de terras desconhecidas, procuraram outros empregos em cidades próximas, mas, a pesca está-lhes na veias e eles, nas férias, feriados e dias livres reúnem-se, pela manhã, pegam nos barcos de seus pais, ou noutros já construídos por eles, e entram pelo mar dentro, estendendo a rede cujo traço é desenhado pelas bóias à superfície. Ao fim da tarde, a faina repete-se, e, embora já não se faça por necessidade, ela faz-se sobretudo pelo amor ao mar gosto e aos ensinamentos que pais e avós lhes transmitiram e que eles querem preservar transmitindo-os aos filhos… A paisagem também se transformou, e os prédios altos, substituiram as vivendas e invadiram as dunas, destruindo toda a beleza natural e a alma daquela localidade.

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publicado por fatimanascimento às 16:26
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