Sábado, 10 de Maio de 2008
Finalmente. Vejo-a tão poucas vezes, agora, que o seu aparecimento é um grande acontecimento. Veio ligeira, feliz, realizada, cheia de projectos e novidades, e fotos da sua vida actual... e com a solidariedade que a caracteriza. Não demorou muito tempo, mas veio. Deixou o quarto onde vivia e trocou-o pela sua privacidade, encontrada num na forma de um T1, nas águas furtadas de um prédio do centro da grande cidade. Mostrou as fotos da casa - muito espaço, imensa luz. A decoração já está desenhada na sua imaginação. A principal preocupação - torná-lo confortável. E vai consegui-lo.Tudo surgiu muito depressa na sua vida - o fim do curso, o estágio e o emprego. A independência traduzida num quarto alugado, pago pelos pais, na baixa da cidade. O estágio não era remunerado. Mesmo no final do período de estágio, a desistência de uma colega, que optou pelo melhor salário oferecido pela concorrência do ramo, a vaga aberta, o ambicionado emprego e uma carreira que começa a desenhar-se apoiada numa ambição justa e num desafio de dar o seu melhor naquilo que faz. É uma rapariga destes tempos, como tantas outras. Com interesses idênticos e sonhos.Curiosamente, não foi a idade que nos aproximou, mas as viagens diárias que fazíamos na direcção da capital, naqueles comboios longos, incansáveis que se fartavam de engolir e vomitar gente, em estações e apeadeiros. Ainda me lembro desse dia. Apanhámos o inter-regional, e ficámos sentadas num compartimento, com os dois bancos presos às paredes opostas. As bagagens num suporte, por cima das nossas cabeças. Ficámos à frente uma da outra. Ao lado dela, uma senhora de idade relembrava as circunstâncias dolorosas em que perdera o marido, quando trabalhava na linha do comboio e fora colhido bruscamente por um comboio, e lhe roubara a vida demasiado cedo. Olhávamo-nos ocasionalmente, numa cumplicidade intensa. Ela não suportava mais ouvir aquela senhora que revivia incessantemente aqueles momentos de há vinte anos atrás, e que nunca mais ultrapassara. Ainda me lembro do seu rosto distorcido, numa careta improvisada e cautelosa, que não demorava mais do que um instante. Apontou-nos o local. Não se lembrava já muito bem. Era mais à frente ou mais atrás, mas era aquele sítio. Impressionadas com as lembranças e o profundo sofrimento daquela alma que nunca mais reencontrara a paz, fingimos interessar-nos pelo local. Quando a senhora saiu, pudemos, finalmente, falar à vontade. Simpatizámos uma com a outra e trocámos os contactos. Como vivíamos na mesma localidade, não era difícil encontrarmo-nos.
Foi uma amizade que duraria até aos dias de hoje. Somos diferentes, não só na diferença de idade como no temperamento, como na maneira de pensar, mas isso nunca foi impedimento para uma boa, forte e longa amizade. Mesmo a distância, o silêncio prolongado, a que nos vemos sujeitas, devido às circunstâncias da vida, o sentimento está lá.

Fátima Nascimento


publicado por fatimanascimento às 02:56
Sexta-feira, 14 de Setembro de 2007
Sempre fui da opinião que os meus filhos não são grandes estudantes, no sentido de tirarem boas notas, mas são boas pessoas, e é disto que eu me orgulho mais. O pilar dos três é a minha filha do meio, cuja estrutura emocional e maturidade já se desenham a traços fundos no seu carácter. Com apenas treze anos, ela já tem obrigações que muitos outros não conhecem antes do final da adolescência, pelos mais diversos motivos. Mas não foi só agora, que ela começou a trilhar o difícil caminho da vida. Ela tinha apenas oito anos quando me separei e, com o nascimento da irmã, ela revelou-se não só uma irmã atenta e carinhosa, como também uma segunda e pequena mãe, iniciando-se cautelosamente no mundo das fraldas. Nunca mais brincou com bonecas. Com a deterioração da qualidade da nossa vida, ela, na minha ausência, tomou o meu lugar, como dona de casa, tentando imitar-me em tudo. Às vezes, tenho medo de estar a sobrecarregar os seus ainda tenros e ternos ombros, mas como a vida é implacável, e não tem pena de nada nem de ninguém, cá nos vamos virando. Agora com o meu novo emprego de horário flexível e ganho incerto, as suas responsabilidades aumentaram imenso, em casa. E, com a doença do avô, mais uma responsabilidade caiu sobre ela. Alzheimer é uma doença estranha e deve ter muitas facetas, e ela está a lidar desde já com ela, velando sozinha por ele, na ausência dos adultos. Admiro a forma como ela atravessa o espesso véu dos seus medos e enfrenta, mesmo vacilando, o inferno dos seus pânicos, para ser útil. Ela não deixa de ser, psicologicamente, muito parecida comigo, ultrapassando os obstáculos, quando é possível ultrapassá-los, vencendo primeiro o seu medo e, depois, enfrentando a vida. A minha admiração é que ela mantém-se um rochedo frente às implacáveis investidas das gigantes ondas da vida. O que mais admiro é a sua coragem e integridade no meio do tornado que assola as nossas vidas. Faz-me lembrar um guerreiro medieval, lutando pelos seus seus ideais. Um pormenor que mostra como ela cresceu, é os filmes que ela já vê, e onde ela vai também ganhar força, trocando-os, de vez em quando, pelos juvenis, como se não quisesse perder totalmente, o contacto o comportamento adolescente típico dos gaiatos da sua idade. E ela é já tão adulta para sua idade, que, às vezes, tenho medo. Já não suporta certas brincadeiras dos colegas que classifica de infantis. A adolescência que deveria ser uma passagem calma da vida infantil à dos adultos, está para ela, a decorrer a um ritmo avassalador, empurrando-a sempre para a frente, para o mundo indescritivelmente perigoso dos adultos. Espero que ela tenha tempo para realizar também a transição emocional, tão necessária a esta fase da sua vida. E a vida tem puxado tanto por ela...
Olhos grandes, atentos e expressivos de um cinzento indefinido, azulado ou esverdeado em certas épocas do ano, sombreados por grossas sobrancelhas descaídas nos cantos, a boca torneada de lábios grossos e suaves, ligeiramente aberta, a testa larga, as maçãs do rosto salientes, separadas pelo nariz ligeiramente largo, as linhas do rosto suavemente desenhadas, ligeiramente cobertas pelo cabelo loiro escuro caído nos ombros como uma cascata brilhante, levemente ondulada e matizada, um queixo suave e estreito fazem da adolescente uma beleza natural.
O carácter recto, suave e meigo, matizado por uma alegria e um sentido de humor inteligentes, misturado com uma determinação sensata, uma coragem tímida, revelando-se integralmente numa coragem frontal nos momentos injustos ou excessivos, confundindo-se com revolta ou indisciplina; leal e companheira, solidária, impaciente frente à má vontade, paciente e protectora com os mais fracos, de uma imaginação selvagem e desenfreada revelada na escrita e na arrojada fotografia, a escrita dotada de uma força vertiginosa e sensível, captando a atenção desde as primeiras linhas, mas logo derrotada pelos assuntos transcendentes… assim é a minha filha do meio. Com treze tenros anos, uma altura e um corpo de dezassete, esta menina-mulher caminha um caminho ainda recto, procurando ora desviar-se dos temporais, insistentes assoladores da sua ainda curta vida, ora avaliando-os com a frontalidade ou o desprezo que lhe despertam, ela luta pela sua felicidade, sempre coerente consigo própria, mesmo quando o mundo à sua volta parece desabar. Cresceu e amadureceu muito depressa, a maior companheira que alguém pode desejar. Agradável e educada no convívio com estranhos. Despegada dos estudos, mas dotada de uma marcante memória, ela consegue verdadeiros feitos. Tão diferente e tão semelhante a mim, o meu braço direito desde há cinco anos para cá, desempenhou os mais variados papéis. E sempre bem… olhando à sua tão frágil idade e aos momentos difíceis pelos quais teve de passar, mantendo-se sempre fiel a si mesma.


publicado por fatimanascimento às 07:23
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