Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008
A tarde de primavera estava a ser violentamente chicoteada pela chuva impiedosa. Nas ruas, as águas formavam ribeiros juntos aos passeios. Nos alto dos meus saltos, eu tentava equilibrar-me na ladeira, para evitar uma aparatosa queda. As poucas pessoas que cruzava, deslocavam-se apressadamente com as pastas a servirem de improvisados chapéus. As pessoas mais idosas, prevenidas com o indispensável chapéu-de-chuva, caminhavam cuidadosamente, concentrando-se em cada passo. As portas do centro comercial, mesmo à minha frente, ao fundo da rua, olhavam-me convidativas. À chegada, um ar morno e seco envolveu-me num abraço seguro. Desci as escadas, deixando, atrás de mim, um rasto de pingas grossas de água. Voltei à direita, entrei na loja e dirigi-me à secção procurada. Desci as escadas rolantes. Os livros olhavam-me pachorrentos, encostados, confortavelmente, nas suas estantes. Perdi-me nos corredores, absorvida naqueles pedaços de mundo, encriptados naquelas páginas cobertas com capas coloridas. Subitamente, uns acordes subiram no ar seco e morno da imensa sala, logo seguidos de uma voz mágica, que me abriu as portas de um mundo novo, mágico… qual canto de sereia que hipnotiza aqueles que a ouvem… Dirigi-me à origem do som, guiada por aquela voz encantada, qual farol guiando o barco perdido na imensa noite escura, tentando descobrir a dona daquela voz… que se elevava embalada pelos acordes musicais. Passou um empregado, concentrado na sua tarefa, e, saindo do meu torpor, questionei-o sobre a identidade daquela voz. Ele orientou-me por entre as inúmeros e vastos móveis estriados de prateleiras, algumas delas com rostos repetidos. Numa delas, à minha esquerda, estava uma fila de cds, todos com o mesmo rosto enigmático, como se encerrasse em si um mistério profundo, ocultado pelas águas revoltas e profundas do mar. Essa fila repetia-se pelas outras prateleiras do mesmo móvel. Fiquei por momentos imobilizada, deixando-me penetrar por aquela voz e aquela música que ocupavam cada célula do meu corpo. A minha mente rendida à beleza daquele harmonioso som, deixara-se conduzir para parte incerta, na certeza de encontrar, ali, toda a harmonia ausente da vida. Não me apetecia sair dali, tão hipnotizada estava por aquela voz poderosa e frágil, a quem os variados instrumentos, que a acompanhavam, faziam justiça. Todo o conjunto de instrumentos contribuía para a criação de uma atmosfera única, jamais vivida por mim. Algo de estranho e maravilhoso, naquele tipo de música tão português!


publicado por fatimanascimento às 03:16
Segunda-feira, 21 de Abril de 2008
(Ao meu avô materno, João do Nascimento, pela pessoa que foi…)


As ruas estreitas calavam os gritos. Não se percebia bem se seriam gritos ou grunhidos ou latidos ou uivos, e, após alguns anos, os habitantes ainda não conseguiam distinguir os ruídos de forma a identificá-los. Já se haviam habituado aos sons estranhos que transpiravam das grossas paredes de pedra e da janela comprida e estreita, de vidros sujos, e enferrujadas grades, três ao todo, encavalitada num dos lados, e ao cimo da parede do rés-do-chão do pequeno solar. Do lado oposto, outra janela igual decorava a mesma parede. Ao centro, uma porta alta e estreita, de madeira sólida, escondia o mistério. Ninguém sabia ao certo o que se passava dentro daquelas paredes. Os gritos acompanhavam os aldeãos pela rua fora quando, de enxada ao ombro, ao romper do dia, se dirigiam aos seus terrenos e, depois, no regresso. Mas nem sempre os estranhos ruídos se faziam ouvir, como se a calma se devesse ao cansaço e ao sono de quem os produzia. O que eles mais estranhavam e comentavam entre si, ao princípio, era os ruídos humanos que se adivinhavam por trás daqueles sons indistintos. As crianças, que desciam a rua, pela mão das mães, olhavam receosas aquela janela, enquanto escutavam os ruídos de palha remexida e os longos lamentos. As mães sorriam-lhes tranquilizadoras e eles, passado algum tempo, já se habituavam aos estranhos ruídos. Os rapazes mais turbulentos, olhavam com aparente destemor aquela janela, chegando a aproximar-se da inatingível janela, como que desafiando o perigo escondido. Alguns faziam até apostas entre si, para ver quem conseguia aproximar-se mais dela. Alguns chegavam mesmo a perder os preciosos haveres em tais aventuras, regressando para reclamarem, vitoriosos, o seu prémio. Mais tarde, aprendiam a respeitar aquele que haviam considerado, um dia, uma ameaça, e deixariam de dar importância. Nunca ninguém vira o autor de tais gritos. A porta só havia sido transposta por um caçador muito conhecido na aldeia e que, aparentemente, e dadas as horas das visitas, parecia tratar daquele ser desconhecido. Só ele, para além da família, conhecia o mistério escondido na loja daquela casa. Todas as manhãs e, nos finais de tarde, a figura alta, esguia e ágil do caçador, muito conhecido e respeitado na aldeia, para onde fora viver, após o casamento. A sua estatura, o franco rosto estreito e longo, os inteligentes olhos encovados e pequenos, a sua natureza simples e aberta, valera-lhe a amizade daquela gente simples. Nunca lhe perguntaram o que se passava por trás daquelas paredes, mas também sabiam que ele jamais responderia. Nem mesmo a mulher e os filhos viriam a conhecer o segredo. Fora convidado pelo dono do pequeno solar, e, a partir dali, nunca falhara um só dia a sua tarefa. O efeito que tinha sobre a criatura era espantoso. Dir-se-ia que os dois se entendiam para além das palavras.
Ora, uma tarde, a filha mais velha do caçador, passava na rua, junto do muro oposto à casa, quando ouviu uns ruídos mais acentuados. Dir-se-ia que a criatura estava mais agitada do que de costume e os longos lamentos pareciam querer deitar abaixo as paredes que o prendiam.
- O que se passa? - pensou para si a pequena, estremecendo, enquanto deitava um olhar furtivo e amedrontado à janela, como se tivesse medo que a criatura fugisse por ali, a qualquer momento e tivesse de o enfrentar. – O pai já teria visitado aquele ser solitário? Àquela hora já era costume. Então porquê tamanha agitação? E porquê aquele profundo e longo lamento que cortava a alma?
De repente, deu um salto. Uma mão, de dedos esguios, intensamente peluda, em tudo semelhante à de um humano, acabava de estilhaçar o vidro e agarrava a grade do meio. Uma testa igualmente peluda, seguida de um cabelo que mais se assemelhava à continuação do pelo da cara, surgiu, por momentos, no pequeno rectângulo. Dulce deixou cair o cesto da fruta que levava no antebraço. As maçãs espalharam-se pelo chão. Ela pareceu não dar por nada. Ficou a olhar estarrecida para aquela janela. Olhou à sua volta. Não se via ninguém. Ela atrasara-se e a noite caía sobre a rua, como se quisesse manter o segredo daquela janela. Ela aproximou-se mais, atraída pela revelação súbita do estranho do mistério. De repente, um par de olhos muito abertos, revelando um atraso mental profundo, e um nariz grosso e saliente pareceram farejá-la. A criatura, alarmada, com a presença inesperada daquela miúda de oito anos, pareceu ficar excitada. Não cessava de saltar, tentando, desesperadamente, manter-se agarrada à grade de forma que pudesse manter a visibilidade. Dulce continuava petrificada a olhar a repentina imagem. Um barulho pareceu acordá-la do seu espanto imobilizante. Uma voz masculina tentava-o acalmar e, pelos ruídos, desviar a atenção do ser da janela. Outras vozes se juntaram à primeira. Até que os gemidos, de quem parecia usar da força para imobilizar o ser, deu lugar a um silêncio ofegante.
Dulce agarrou o cesto, apanhou à pressa as maçãs que estavam mais perto dela, e afastou-se, apressadamente, da janela. Confusa com tudo quanto presenciara, ela correu para casa, subiu os degraus, abriu a porta com violência e estendeu o cesto à mãe, refugiando-se, logo de seguida, no seu quarto. A mãe não lhe fez perguntas. Dulce guardaria, durante muito tempo, aquela imagem na sua memória. Memória essa que perduraria muito para além da morte daquele ser, ignorado da sorte, enquanto viveu.
Na janela, um rosto largo e barbeado, olhava atentamente a rua pela janela. Não se via ninguém. Mais descansado, colocou uma tábua de madeira a tapar o buraco do vidro, por onde a aragem, daquele frio e cinzento entardecer, entrava.
- Ainda bem! – pensou, enquanto se afastava. E, depois, em voz alta, voltando-se para alguém – Temos de mandar arranjar aquele vidro.
E afastou-se, deixando, atrás de si, uma criatura dobrada sobre si própria, embalando-se continuamente, como que reconfortando-se na sua dor. Olhou para trás, antes de fechar a porta. A criatura não abandonara a sua posição. Fechou cuidadosamente a porta, como se tivesse medo de o acordar, e subiu as escadas, rumo à cozinha de onde se desprendia um cheiro agradável a comida.

Fátima Nascimento


publicado por fatimanascimento às 08:50
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