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Sexta-feira, 16 de Abril de 2010

As ondas atiravam-se contras as negras rochas acompanhadas de um profundo e constante rugido feroz. O horizonte mantinha-se alinhado ao azul e sereno céu apagando-se, momentaneamente, na luzidia e elevação líquida prestes a enrolar-se sobre si deslizando suavemente sobre o seu duro e liso corpo, de onde se destacavam as grossas veias do esforço da elevação, orlado de uma macia e levemente intrincada renda aquosa de frios desenhos exóticos deslizando no rude areal como remate de um manto real. Só os rochedos travavam as duras investidas desmanchando o forte corpo de água em inúmeros fios que se infiltravam por entre os pequenos espaços livres dos encaixes das rochas. Alguns salpicos elevavam-se na leveza da alva espuma, soprada na forte brisa, e travada no rosto ausente. Do cimo do trono de volumosas pedras, um jovem e delicado corpo, de olhos fixos na linha do horizonte escurecida pela ondulação febril, parecia indiferente aos amuos da praia. A triste e solitária figura, recortada no verde metálico das vagas, coroava a tarde de um silêncio perturbador. O solitário e rasteiro corpo, ligeiramente curvado para a frente, parecia medir forças com a corpulenta massa de ar. E, para quem passava, mais não era do que isso! Uma massa sólida colada à rocha servindo de obstáculo ao obstinado vento. No entanto, não poderiam estar mais errados! A cabeça abrira uma janela na força da imaginação que sulcava as despenteadas crinas brancas do ruidoso e indomável mar. E um porto acolhedor desenhou-se à frente do olhar, abrindo os braços à misteriosa e aventureira nau fundeou nas serenas águas abrigadas e estendeu convidativamente o estrado de madeiras cruzadas onde o juvenil corpo se equilibrou para subir a bordo. E, recolhendo imediatamente a âncora, esticou as imensas velas, de panos esticados ao limite, e, submetendo-se à caprichosa brisa, rumou a paragens desconhecidas. E as paisagens modificavam-se: a norte, os abandonados areais brancos ondulantes como vagas cavadas nos abismos do mar, fustigados pelo impiedoso ar que vergava as finas hastes verdejantes ao seu pesado hálito salgado que murmurava segredos de histórias de saques e tesouros de piratas escondidos na alma arenosa. E os cenários sucediam-se. E, acompanhado a latitude do globo, descia até ao quente sol dos trópicos procurando o doce aconchego das águas dóceis e mornas, vestidas de azul forte contrastando com o forte verde-claro, limitadas de brancos e finos areais, rodeadas de verdes territórios virgens, de onde espreitavam nus corpos morenos curiosos e expectantes. E rendida à inocência do momento, o pequeno bote desceu até às águas cristalinas tendo como único ocupante o juvenil corpo que abandonava definitivamente a nau rendida aos encantos que se reflectiam na sua alma. Mas o bote começou a recuar na límpida água sugado num rodopio alucinante e a terna paisagem desapareceu dos seus olhos para se transformar numa espiral onde misturavam os mais diversos elementos deformados e terminar… na praia de onde partira momentos antes, e encontrou-se sentada no seu trono de pedra; o sol concentrava-se no seu mergulho luminoso e sentiu o bafo frio e húmido do mar na pele. A mão poisada no seu ombro e a voz masculina que resmungava baixinho:

- Assim não vale a pena vires à praia! Mais vale ficares em casa!

A menina sorriu docemente ainda levemente estremunhada. Ergueu-se e seguiu as passadas paternais. O que é que o pai sabia disso?



publicado por fatimanascimento às 20:15
Terça-feira, 15 de Julho de 2008
O sol estava alto. As caras franzidas, vermelhas do esforço, pararam e encaram-me. Regressara, há pouco, da praia e vira-os a jogar à bola, no largo. Saí de casa e fui ao encontro deles. Rapazes e raparigas jogavam à bola. Saudaram-me de olhos semicerrados, devido à claridade do sol:
-Que estás a comer? - a pergunta já familiar não me surpreendeu.
Era um rebuçado de morango, que me haviam oferecido na viagem. Colocara-o, havia pouco tempo, na boca e apenas começara a provar o seu sabor agridoce. Preparei-me para o que se seguiria. Várias mãos se estenderam na minha direcção:
-Dá-me um bocadinho! – pediram, em uníssono, várias vozes suplicantes. Eu hesitei por momentos. Eram tantos para um só rebuçado, já parcialmente derretido! Olhei aqueles olhos ansiosos, cansados do esforço recente e tomei a decisão. Parti o rebuçado com os dentes e comecei a distribuí-lo por todos. Coube um pedaço minúsculo a cada um, mas ninguém refilou, embora eu tivesse notado que alguns repararam, nos tamanhos dos pedacinhos. As vozes emudeceram saboreando aquele momento de descanso frutado. Sentaram-se no passeio, em frente do meu prédio, curvados pelo peso do cansaço. A bola, já gasta, parada aos pés do dono, olhava-nos amorosamente. Uma aragem, aproveitando o final da tarde, esgueirou-se dos ramos das árvores, cujas folhas dançavam serenamente, e veio presentear-nos com o seu bafo ainda morno. Kimba, muito aconchegado a um nós, foi afastado com cuidado. A sua língua cor-de-rosa pendia dos dentes afiados, acusando o calor. Os olhos amorosos perdidos no ar, pareciam esperar algo.
O grupo continuava calado saboreando aquele momento de descanso. As férias? Tinham sido curtas, para a espera ansiosa que eu experimentara. Tinha conhecido rapazes e raparigas, mais ou menos da minha idade, com quem eu partilhara as minhas brincadeiras. Era um local seguro, com muito pouco movimento, tal como o que tínhamos ali. De um lado o rio, dos outros, as dunas rodeavam o pequeno aldeamento, de pequenas casas amarelas, e, para lá delas, o mar que batia fortemente as suas águas contra o areal ferido e a rochas aguçadas. Era ao som dele, que adormecia. Era durante a noite que a sua voz forte percorria as ruas desertas, com o seu canto lamentoso.
Eles escutaram atentamente o meu relato, de olhos fixos no ar ou no chão.
Sempre regressara com saudades, mas, sempre que os via, sentia-me em casa.


publicado por fatimanascimento às 13:53
Sábado, 10 de Maio de 2008
Finalmente. Vejo-a tão poucas vezes, agora, que o seu aparecimento é um grande acontecimento. Veio ligeira, feliz, realizada, cheia de projectos e novidades, e fotos da sua vida actual... e com a solidariedade que a caracteriza. Não demorou muito tempo, mas veio. Deixou o quarto onde vivia e trocou-o pela sua privacidade, encontrada num na forma de um T1, nas águas furtadas de um prédio do centro da grande cidade. Mostrou as fotos da casa - muito espaço, imensa luz. A decoração já está desenhada na sua imaginação. A principal preocupação - torná-lo confortável. E vai consegui-lo.Tudo surgiu muito depressa na sua vida - o fim do curso, o estágio e o emprego. A independência traduzida num quarto alugado, pago pelos pais, na baixa da cidade. O estágio não era remunerado. Mesmo no final do período de estágio, a desistência de uma colega, que optou pelo melhor salário oferecido pela concorrência do ramo, a vaga aberta, o ambicionado emprego e uma carreira que começa a desenhar-se apoiada numa ambição justa e num desafio de dar o seu melhor naquilo que faz. É uma rapariga destes tempos, como tantas outras. Com interesses idênticos e sonhos.Curiosamente, não foi a idade que nos aproximou, mas as viagens diárias que fazíamos na direcção da capital, naqueles comboios longos, incansáveis que se fartavam de engolir e vomitar gente, em estações e apeadeiros. Ainda me lembro desse dia. Apanhámos o inter-regional, e ficámos sentadas num compartimento, com os dois bancos presos às paredes opostas. As bagagens num suporte, por cima das nossas cabeças. Ficámos à frente uma da outra. Ao lado dela, uma senhora de idade relembrava as circunstâncias dolorosas em que perdera o marido, quando trabalhava na linha do comboio e fora colhido bruscamente por um comboio, e lhe roubara a vida demasiado cedo. Olhávamo-nos ocasionalmente, numa cumplicidade intensa. Ela não suportava mais ouvir aquela senhora que revivia incessantemente aqueles momentos de há vinte anos atrás, e que nunca mais ultrapassara. Ainda me lembro do seu rosto distorcido, numa careta improvisada e cautelosa, que não demorava mais do que um instante. Apontou-nos o local. Não se lembrava já muito bem. Era mais à frente ou mais atrás, mas era aquele sítio. Impressionadas com as lembranças e o profundo sofrimento daquela alma que nunca mais reencontrara a paz, fingimos interessar-nos pelo local. Quando a senhora saiu, pudemos, finalmente, falar à vontade. Simpatizámos uma com a outra e trocámos os contactos. Como vivíamos na mesma localidade, não era difícil encontrarmo-nos.
Foi uma amizade que duraria até aos dias de hoje. Somos diferentes, não só na diferença de idade como no temperamento, como na maneira de pensar, mas isso nunca foi impedimento para uma boa, forte e longa amizade. Mesmo a distância, o silêncio prolongado, a que nos vemos sujeitas, devido às circunstâncias da vida, o sentimento está lá.

Fátima Nascimento


publicado por fatimanascimento às 02:56
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